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PRESENCIALMENTE. VIVAS.

O hábito de pegar o telefone pouco depois de acordar me fez dar de cara, nas primeiras horas da manhã de ontem, com as agressões físicas, a violência doméstica, ou como diríamos na Paraíba, com a surra de um homem em uma mulher. Aquilo me doeu na alma e foi com essa dor que comecei o dia. Li a legenda do vídeo que estava no perfil Paraíba Feminista do Instagram e não busquei mais nada sobre. Nem terminei de ver aquelas imagens e nem assisti outras que soube haver.


Minha filha, dez anos, em algum momento do dia, ligou a tevê e lá estavam as imagens de novo. Desligue. Desligue. Eu me apressei em dizer. Mas expliquei. É um homem batendo em uma mulher. Aqui em casa falamos sobre violência doméstica. Sobre feminino. Sobre feminismo. Sobre machismo. Sobre misoginia. Sem falar nas questões antirracistas e outras que não estão em debate neste texto. Mas não consegui deixá-la assistir como eu mesma reneguei as imagens desde então.


Hoje, elas, as imagens estão de forma mais recorrente na tevê – aberta, que ela zapeia em busca de programação infantil em contexto de férias escolares em tempos de pandemia e ao lado de uma mãe em home office.


Eu não consigo apreender o que um acontecimento destes me traz e as reflexões que me levam a fazer. Uma delas é sobre como nos tornamos voyeurs compulsórios da violência contra a mulher. Só no mês passado vi pela televisão a morte de umas duas ou três, das 16 assassinadas por seus pares ou ex, no Distrito Federal, desde o começo do ano.


A violência contra a mulher está no cerne das minhas preocupações. Das minhas indignações. O livro que escrevi gira em torno da figura feminina, suas vulnerabilidades, seu estar no mundo ameaçado e vilipendiado – desde sempre. Costumo dizer que é uma história toda da humanidade a nos calar, subalternizar, roubar. Matar.


Costumo me informar também por meio de projetos, sites, organizações da sociedade civil e organismos internacionais que denunciam, que escancaram, que somam, contam, colocam em estatísticas, desenham a barbaridade, a barbárie, a chacina contra a mulher. O feminicídio, a cultura do estupro, o abuso sexual contra crianças e adolescentes. São números que aumentaram na pandemia e quando há o recorte de raça, eles recaem de forma mais intensa sobre a mulher negra.


Mas aqui me corrijo. Da mesma forma como lembramos nos casos dos mortos por omissão/corrupção por Covid, não são números. São vidas. São nomes. São histórias. São amores. São pessoas. São mulheres. São crianças. São meninas. São meninos. E todas as suas pretensas formas de tentar ser e ocupar os seus territórios-corpos.


Soube que o agressor-artista-celebridade se colocou no lugar de vítima e nisso foi apoiado por muitas pessoas. Por outro lado, emissoras de rádio do Ceará decidiram não tocar suas músicas. Seu contrato de trabalho em uma grande produtora foi cancelado. Seu clipe com um cantor não será mais lançado. Em agosto. Bom lembrar é que está à solta. E que se colocou no lugar de vítima e nisso foi apoiado por muitas pessoas. Ganhou milhares de seguidores após a exposição de seu comportamento criminoso.


Não é fácil sair da teia do relacionamento abusivo. A vítima das agressões conta sua história. Ato de coragem. Seu relato. Sua carne-dor exposta. Imagens para mostrar/provar. São importantes não apenas para romper com o ciclo de violência que viveu na carne-dor exposta. Mas para inspirar e mobilizar outras mulheres a fazer o mesmo. Denunciar. Buscar ajuda. Mobilizar quaisquer de nós a ser não apenas testemunhas. Cúmplices. Voyeurs da violência contra a mulher.


Que a imagem dolorosa – que machuca e humilha a todas e todes – não apenas nos dê a sensação de que assistir a ela é o suficiente. Porque precisamos, também, que o bandido não seja o vereador. Precisamos meter a colher. Precisamos saber quem matou. Precisamos que as vidas importem. E que possamos estar. Presencialmente. Vivas.



Imagem de Pexels por Pixabay