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A menina. Super-Heroína

22.09.2019

Quando vi Ágatha pela primeira vez, era cedo da manhã.

 

Sua pele preta. Seus cabelos cacheados. Seu sorriso. Fizeram-me lembrar de mim. Na infância.

 

Sua roupa de super-heroína puseram em mim um sorriso de canto de lábio que acompanhava um pensamento. A alegria pelas peraltices da crianças. Pelas fantasia e simplicidade. Fazem de coisas tão desimportantes a nós, adultos, a razão de existir de uma criança. Que valor teria sua vida se não pudesse virar Mulher-Maravilha?

 

A próxima coisa foi ler o texto que acompanhava e legendava a imagem. Havia curiosidade em saber  a razão de figurar no Instagram do meu colega jornalista Marcelo Canellas.

 

Foi então que não acreditei. Que emudeci. Que reli. Que queria que você fosse mentira. Fake News. E ao descobrir que não, sofri. Chorei. Levei para o dia inteiro, essa dor da incredulidade. Da inutilidade. Eu poderia ter escrito sobre ela naquele momento. Mais tarde, toda a imprensa e todas as pessoas fizeram de Ágatha alguém que constava  em seus veículos, suas Redes Sociais.

 

Quando vi Ágatha pela primeira vez e soube do motivo por que eu a via. Silenciei. Eu pensei na minha filha. Apenas um ano mais velha. O quanto vidas tão curtas são tão longas em amor. Em significado. Em esforços. Em lutas. São enormes mesmo. Infinitas. Eternas.

 

E já era no lugar da eternidade que figurava aquela vidinha de  oito anos. Tão largos. E longos para quem cuidava dela. Mas não pode deter a contundência de uma arma. Esta sim, super–poderosa. Nas mãos de vilões que transformaram a Mulher-Maravilha em cadáver. Que desfizeram seus gestos. Para lhes cruzar as mãos.

 

E para que nunca mais se postassem em gesto/esperança de extirpar o mal do mundo. O mal paralisara a criança. De pele preta.

 

Eu não quis falar de Ágatha. E ao ouvir Gilberto Gil pensei que ela era como o luar. De quem não há mais nada a dizer. A não ser que a gente precisa ver o luar.

 

Como enxergar o luar composto pelas crianças. Negras. Moradoras de comunidade. Amadas. Como ver as que estão na rua. As que acompanham adultos perto do supermercado da minha quadra e que diferem tanto de minha filha, tendo a mesma idade? Como transformar a dor. As palavras. A opinião. Em algo que faça diferença?

 

Eu não somos todas. A minha filha não está na Kombi. Não está no Complexo do Alemão. Não está no Rio de Janeiro. Ainda que esteja, como todos estamos, na mira de uma política de estado que resolveu assumir o que sempre a moveu como um fio tênue e invisível. Em que vidas negras não importam. Poucas vidas importam.

 

Atirem. Atirem. Matem. Matem. E só depois nem perguntem. O movimento das Redes Sociais já é sabido. Dá e passa. Antes que se esgote já haverá outro caso. Já haverá mais do mesmo. 

 

Outra criança. Outro segurança. Outra família. Outro engano. Outro pedido de desculpas. Outra tortura. Outro confronto. Imaginário. Outra pele preta tão ameaçadora quanto inofensiva que precisava ser barrada antes de provar-se não letal. E mesmo que fosse.

 

Outro avô. Outra mãe. Estendendo blusas ensanguentadas. Revendo antigos sorrisos. Agora só possíveis em fotos que circulam. Intimidades forjadas pela ausência de quem já não está aqui para contar a história. A história que se deseja embaixo do tapete. Ou de sete palmos.

 

E veio Gonzaguinha. Guerreiros são meninos. A guerreira Ágatha, agora nossa, não conseguiu fazer muito para dominar o mundo. Livrar-lhe dos malfeitores. Poderes parcos. Ausentes. Foi vencida. Derrotada. Assassinada.

 

À paisana - simples menina. Fazia balé. Falava inglês. Estudava. Estava desarmada. Não entrou em confronto. Seu mundo não comportava tanta realidade. E, na sua fantasia, podia seguir. E sorrir.

 

Guerreiros são pessoas.

 

Seu sonho é sua vida.

 

Se você não tem a sua vida, Super-heróina Agatha.

 

Não dá pra ser feliz.

 

Descanse.

 

 

 

 

 

 

 

 

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