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A CARTA

Você quer falar algo sobre a carta?


Não. Ela é linda. Já agradeci por ela.


Nenhum dos dois ficou satisfeito com o conteúdo daquelas frases pouco representativas do que sentiam.


Ela, como já havia dito, ficara surpresa com a revelação ali contida. Estava certa de não ter cogitado a possibilidade. Ele sentenciou que coisas do desejo são do desejo. Ou seja, para elas, não havia muita explicação. Como diria Oscar Wilde, a melhor maneira de livrar-se de uma tentação é ceder a ela. Isso ele não falou. Ela fez a relação. Desejo parece com tentação. Como saciá-lo se não o matando?


Acontece de não ter sentido desejo. Assim, desse tipo que precisa ser vivido como morte matada, irrompido entre os passeios íntimos (para o tempo que se conheciam) e conversas fartas. Leves e potentes. Como água despencando, sem obstáculos, de corredeiras altas.


Se costumasse ruborizar, teria ficado de bochechas vermelhas. Afogueadas. A revelação mudara alguma coisa. Desequilibrado os dois. Antes, brincavam juntos na gangorra. Agora, alguém havia ficado em cima, esperando que a retenção de quem encostava os pés no chão, tivesse fim.


Ante a resposta negativa ou vaga ou que dizia que o desejo não era recíproco, se for isso, ambos ficaram pensativos. Nunca mais desceram da gangorra. Nunca mais brincaram. Nunca mais, pés no chão.


A carta. Era bonita mesmo. E tal como ele se sentira confrontado pelo não, ela era impelida a pensar-se por meio daquelas palavras. Súbito, lhe ocorrera que era a primeira ‘carta de amor’ recebida. Não que falasse de amor. Falava de sons. Silêncios. E ventos. E sobre o conteúdo das noites. Sobre ninhos. Sobre palavras. Asas. Pássaros livres. Enumerado assim, percebe, fala de amor.


Naquela primavera, das pequenas coisas, a carta era grande acontecimento. Não havia ridículo ali, como quis fazer crer Álvaro de Campos. Seria se falasse de amor? Bateria o pé de que era de amor. A carta. Nunca ridícula.


A resposta foi ridícula, isso sim. Não houve. Nunca desceu da gangorra. Esquecera de brincar. De pernas rijas, transformara o ninho em queda livre. Lá do alto, contemplava a carta. Era a primeira vez que lhe escreviam aquelas sentimentalidades.


Palavra e alma andam juntas. Descoberta compartilhada. Palavras interrompidas inflamam. Inflamam-se. Gargantas doentes. Caladas. Sentidos da vida desabitados. Ainda bem que a imensidão está dentro. E os pássaros voam. Liberdade não se prende. Ela se faz revoada.




© 2017 por Waleska Barbosa. Orgulhosamente criado com Wix.com por Mauro Siqueira.

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