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EU TÔ GRÁVIDA

Eu tô grávida.

Era isso que ouvia.

O verso da música de Marina Lima e Arnaldo Antunes me acordou.

Não vinha de caixa de som de algum vizinho mais animado. Não saia das frestas de janela de algum cantor de chuveiro. Soava silencioso. Inquietante a ponto de me despertar.

Embalava-me nas respostas que eu mesma dava.

Eu tô grávida. De cinema. De jovens. De cabelos crespos. De turbantes. De tranças. De alunos. De professores. De debate. De conversa. De perguntas. De respostas. De pele escura. De olhar. De mulher. De mulher negra.

Eu tô grávida. Fertilizada pela arte.

Trazendo no ventre as minhas inquietações e todas as que testemunhara.

Lambuzada por sêmen lava visgo.

Gerando novas percepções – as minhas e todas as que testemunhara.

Prenhe de admiração e deslumbre.

Havia três terças-feiras me copulando. Desde a primeira em que pude estar, até ontem.

Outras tantas germinam já – desde maio.

Acariciava o rebento com delicadeza precisa.

Pensava que não era mais um no mundo, como podiam supor.

Era como se fosse o único.

O único debate com aquela profundidade. A única vez frente a uma grande tela. A primeira vez em que ouvira falar de Anelis. E de Itamar.

A primeira chance de (me) ouvir falar de mim sem que precisasse me espremer na cadeira, acuada pela unilateralidade da história. Sem o açoite da incompletude. Sem a fenda da diáspora.

Quais seriam aquelas histórias? As de quem estava na plateia? Como as narrativas audiovisuais poderiam repercutir na vida ou “no dia mais importante do ano”, como testemunhou alguém, a partir daquele instante?

Quantas possíveis futuras mães estariam prontas para dar liberdade aos cabelos dos rebentos?

Quantos relatos da violência desavisada e inocente do alisamento compulsório estavam sendo silenciados ali?

Quantos gritos implodiam dúvida desconhecimento disfarce.

Gritaram-se negras e negros. Pela primeira vez livres dos grilhões da fala miúda.

Pela primeira vez liberados para ser o que fosse o que sejam o que queiram. Onde quer que vá. Onde quer que estejam.

Astronauta. Bailarina. Militante. Criança. Cantora. Mãe. Carolina. Lélia. Juliana. Mercês. Melina.

Identidade recém-nascida.

Chorando colo.

Buscando acolhida.

Respira.

Falta pouco.

Mais uma força. E um grito.

Olho aberto agora.

Que o mundo é outro.

E o seu olhar, visionária, é parido.

Afronta seria não ter nascido.

Como Ancestralidade te batizo.

Arte: Bruna Daibert

Bruna Daibert