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SINA DE CIGARRA

13.10.2017

Uma das primeiras matérias que escrevi em Brasília foi sobre as cigarras. Naquela época, bem forasteira, quase menina, não entendi a gravidade do assunto.

 

Fui em busca de uma especialista e precisei tirar a mulher de um evento para que pudesse entrevistá-la. Bem-mandada, segui o que indicava minha pauta e as recomendações do meu superior.

 

No íntimo não acreditava no que fazia. Nem entendia a razão de as cigarras figurarem altivas em espaço privilegiado de um jornal impresso.

 

Da apuração da época não lembro mais de nada. Mas a sensação de ignorância me massacra até hoje.

 

Como a importância das cigarras poderia passar incólume à jornalista recém-empregada? Como subestimar a força simbólica do inseto para o povo de Brasília?

 

Posso encontrar argumentos para um auto perdão superficial. Vinda do Nordeste trazia a imagem da cigarra imortalizada por Jackson do Pandeiro e Delmiro Ramos. Era eu mesma a encarnação do que cantavam. “Nasci com uma sina de cigarra. Aonde eu chegar tem farra”.

 

Também era marcada pela fábula transformada no desenho animado de que me recordo. Em que os comportamentos da cigarra e da formiga eram antagônicos. A formiga se preparava para o inverno, com trabalho árduo e ininterrupto. A cigarra, com sua sina, seguia festiva e alheia aos perigos que se avizinhavam.

 

Chegado o tempo de pouca fartura, a pobre tinha seu carpe diem punido pela escassez. E se via obrigada a reconhecer um erro que talvez não cometera. Quem poderia atirar a primeira pedra para aquela cigarra àquela altura faminta?

 

A formiga benevolente passava, então, a grande mensagem altruísta. Vamos apagar o passado, era o que dizia nas entrelinhas. E dividia o seu quinhão. Talvez dançassem juntas para comemorar. Não me lembro.

 

Por aqui, as cigarras estão sendo caçadas. Nas redes sociais. Todo dia vejo a pergunta gritada por letras maiúsculas. ONDE ESTÃO AS CIGARRAS?

 

A questão chega a ser paráfrase do título do documentário “Para onde foram as andorinhas?”, dos Institutos Socioambiental e Catitu. Nele, os povos do Parque Indígena do Xingu, em Mato Grosso, indicam os sinais que a natureza deixou de emitir. Como a presença das andorinhas. E o canto das cigarras.

 

O ciclo de vida desses seres é sofisticado. Não apenas anunciam chuva. Mas precisam dela para poder cavucar a terra onde descansavam em forma de ninfa e, sobre a superfície, se tornar adultas. Antes de virar comida de pássaro é preciso legar sua condição miserável. Urge acasalar-se.

 

Talvez por isso a fama de cigarra que a cigarra tem.

 

Uma vida toda dedicada a um instante de prazer. Antes da morte. Sempre à espreita.

 

Aos machos, cabe cantar. Som que pode alcançar 120 decibéis. Tão alto quanto as reclamações de que são vítimas. É a gente da cidade grande, talvez até mesmo de Brasília, a dizer que têm os tímpanos feridos. Perguntar.  Nas Redes Sociais. POR QUE NÃO CALAM AS CIGARRAS.

 

 

 

 

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