Antes de me cumprimentar seu olhar já parecia perdido em reminiscências.
Pareceu o de uma criança diante de um sonho realizado.
Pelos olhos saíam faíscas próprias do estado de encantamento.
Giraram para o lado de quem lembra. De quem é engolido por um instante do passado. Capítulo bom de história que não volta.
Tudo isso durou segundos. E o olhar só foi decifrado por mim quando ela saiu, enfim, do transe instantâneo e me disse:
- Eu tinha uma blusa assim. Dessa cor. Desse mesmo tecido. Aí, não cabia mais e eu dei a outra pessoa. Só que me arrependi porque agora que emagreci, ela ia caber.
Foi só então que entendi as faíscas que, sem a explicação, talvez passassem batido, como se diz.
Pensei no que responder. Não havia palavras. Nem razão para buscar dar-lhe o consolo diante de atitude que agora parecia insensata. Na época fez sentido e isso era o importante. Mas não cabia a mim dar essa explicação.
Também pensei em dizer que a blusa era velhinha. O que, ademais, não era informação relevante.
Depois dessa frase silenciada acrescentaria que, procurando bem, um buraquinho qualquer seria desvendado em sua superfície. Lembrei dele quando a escolhi. Fingi que não sabia porque trocá-la não era uma opção.
Não hoje. Quando fui gentilmente convidada a me vestir de rosa para uma contribuição ao outubro dedicado à prevenção ao câncer de mama.
Ainda em casa enquanto tentava amansar com ferro quente o touro bravo das dobraduras no tecido de algodão, considerei que discordava da efetividade da campanha. Não a do mês. Mas a nossa. Uma imagem. Mulheres vestindo a cor escolhida para chamar a atenção para a importância da prevenção.
Quanto custa o exame? Quanto tempo se leva na fila de um serviço público para fazê-lo? Qual a disponibilidade de cada uma de ir ao médico em meio a tantos afazeres?
Eu mesma tinha uma requisição nunca utilizada, há mais de três anos, para a primeira mamografia.
E teria que vestir rosa para sair (bem) na foto.
Não falei nada. Talvez tenha complementado sua narrativa com um: "Eita. Agora está arrependida". Seguida por um sorriso. Não seria nada inédito. Nenhuma constatação que a ajudasse a vivenciar o trauma que agora se aclarava.
Repeti uma colocação que ela mesma tinha feito. “Eita. Agora se arrependeu”. E saí. Fazendo a língua escapulir da queimadura iminente ao contato com o café açucarado (foi um erro consentido. Julguei precisar adoçar-me nesse início de manhã).
Ao sair pensei na força das lembranças evocadas por gatilhos insuspeitos.
O que teria vivido com o corpo coberto pela blusa que já não tinha?
Por que os olhos foram tão longe quando algo a fez recordar-se do tempo em que objeto estava por perto?
Como se sentiria se não tivesse cedido à tentação de se livrar de uma peça de roupa que já não servia? Não poderia supor que um dia isso podia mudar? Tudo muda. Todo cambia.
Quando atravessei o corredor era eu quem tinha os olhos em faísca.
Lembrei do macacão amarelo com uma aplicação no bolso. Era preferido quando eu tinha entre sete e nove anos.