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EU O VI

Eu o vi.

Com os olhos que a terra há de comer.

Eu o vi e era cedinho da manhã.

Não era nada do que eu esperava.

E, na verdade, nem esperava vê-lo porque sempre disseram que está mesmo em todos os lugares, onipresente. E que não é enxergado com os olhos, mas com o coração.

Não esperava vê-lo em carne e osso porque dizem que está mais para uma compleição que não cabe nas coisas desse mundo do que para a forma humana que conhecemos.

Não esperava vê-lo e muito menos de um jeito tão trivial e mundano. Tão medíocre e comum.

Se era para vê-lo que fosse com aparatos de cinema. Que eu pudesse fotografá-lo, fazer um vídeo para postar nas Redes Sociais, juntar-me a ele para fazer uma selfie, esperar que a repercussão do grande encontro me desse os quinze minutos regulamentares de fama.

Se era para vê-lo que fosse para dar um abraço forte, ouvir seu coração, perguntar pelo pai e pelo Espírito Santo. E Maria como vai?

Se era para vê-lo que fosse para escrever a letra de um Rap narrando o ocorrido, para lançar um livro um mês depois, no qual eu seria apenas a coautora. Dar entrevista ao Encontro com Fátima Bernardes e tomar café com Ana Maria Braga.

Maneira mais boba de vê-lo. Tosca. Como diriam os jovens.

E passaria até despercebido se ele mesmo não me tivesse lançado um olhar meio de soslaio. Meio sem querer. Meio que perscrutador. Senti, também sem encará-lo, que fez em uns poucos segundos aquele escaneamento – de cima abaixo – sem que eu entendesse bem a razão.

Talvez fosse por falta do que fazer. Talvez tivesse dificuldade em saber o que fazer com os olhos, como acontece com a gente em relação às mãos, normalmente em momentos de conflito ou nervosismo.

Olhou para mim ou pode nem ter olhado. Agora já não sei se estou enganada ou a cena aconteceu. Deve ter acontecido porque foi movida por esse olhar que olhei de volta embora ele já não estivesse mais me olhando.

Foi por ter me voltado a ele que descobri estar tendo o privilégio de viver aquela situação. Volto a dizer, e lamento que tenha sido assim, que não havia nada do que eu esperava (embora eu não esperasse nada até então) e isso me decepcionou um pouco.

Foi uma visão ordinária, como encontrar o entregador de panfletos na porta do prédio ou dizer bom dia aos vendedores da banca de revista.

Foi como avistar mais alguém na multidão.

Eu o vi e era cedinho da manhã.

Estava sentado em uma lanchonete sem glamour, estilo as das rodoviárias. Vestia jeans e camisa de mangas – não sei se xadrez ou lisa, azul. Também não sei se usava sapatos sociais ou um tênis moderno e casual, muito comum hoje em dia.

Comia algo que eu conhecia bem. Era um misto. Constituído por pão francês, ovo, presunto e queijo. Talvez um café preto aguardasse o momento certo para ser tomado em goles rápidos.

Eu vi Jesus.

E ele era funcionário público.

Estava escrito em seu crachá.


© 2017 por Waleska Barbosa. Orgulhosamente criado com Wix.com por Mauro Siqueira.

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