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O LUGAR

05.08.2020

Ela me pergunta por novidades.

 

Nenhuma.

 

Marcamos novo horário. Para outra averiguação.

 

Eu invento que a novidade é estarmos bem. Vivas. Protegidas. E mais isso e aquilo.

Ou crio alguma teoria. Tempos assim não ter novidade já é uma. E das boas. Lembre-se que novidade nem sempre traz algo bom.

 

Melhor ficarmos inertes.

 

Melhor nos acostumar com o silêncio e o recolhimento das novidades.

 

Melhor nos fingir de mortas. Não. Isso seria tripudiar da situação mundial. E dar ideia ao nosso espírito nos dias em que nos obriga, por inanição, a nos fingir de mortas. E o burlamos. Com alguma atividade mínima. Como sair da cama. Preparar uma refeição apressada. Dar alguns passos. Melhorar a disposição de um cômodo. Sabemos que aquilo não nos ressuscita. Pelo menos por tempo prolongado. Mas só precisamos do hoje. Do agora. Tempos assim não dá para pensar em futuro.

 

Com vozes apáticas fazemos planos de parir, construir, moldar, esculpir novidades.

Enquanto isso, remoemos o presente. As agruras. As decisões. Os erros. Os enganos. A falta de coragem. O que nos afasta de nós. O que nos aproxima de mais um abismo.

 

Ou trazemos de volta as alegrias.

 

Debatemos. Sabemos tudo. Indo e voltando. Como ela está gostando de dizer.

 

Mas ficamos inertes.

 

Acostumadas com o silêncio e o recolhimento das novidades.

 

Ignorando nossos conhecimentos de mães, construtoras, artistas, escultoras.

 

Ora, escapamos de tantas. De tantos. De tanto. Estarmos aqui? Olha aí, que novidade.

 

Ainda está com aquelas cervejas aí? Sim. Hoje não senti vontade.

 

Ouvimos o estalido dos nossos isqueiros.

 

Compartilhamos o som das nossas torneiras. O barulho das panelas contra a pia.

 

Você pensa que só eu faço barulho? A questão é que não fico reclamando dos seus.

 

E as novidades?

 

Rimos ao lembrar do passado. São tantas histórias.

 

Planejamos um projeto literário que nenhuma começa.

 

Debatemos psicologias de coisas e pessoas. Avaliamos questões familiares. Um sobrenome pairando sobre nós. Leão sem dente. Nossas idades gritando o preço que pagamos por uma rebelião mínima. A de tentar ser quem quisemos. Ninguém avisou do preço alto. Ninguém avisou que a essas alturas seria assim. Sonhamos voltar no tempo. Não dá. Vamos seguir.

 

Ela sonha também em se esvair. Se implodir. Se desintegrar. Mundo grande. Mas tão apertado. Ninguém sentiria falta. Gostaria de sair de fininho. Como quem não viera. Não dá pra ter tudo. Vão descobrir. Vão dar pela ausência.

 

Porra. Caralho. Que merda.

 

Vamos voltar ao começo. Repetir tudo o que já foi dito. Fazer as mesmas perguntas. Dar a elas as mesmas respostas. Repetir as histórias. Todas. Com alguma mudança em uma frase ou outra.

 

Só mais 24 horas. Se existirem.

 

Ela queria estar comendo outras coisas. Sentada em outras varandas. Eu digo que estou trabalhando a mente para não sair por aí, buscando vida em memórias e lembranças e quereres. A mente. O segredo é a mente. Coração não sente. Tudo é invenção.

 

Ela repete o que disse antes. Você não me deixa falar. Desculpa. Fale. Ahhh. Porra. Caralho. Que merda.

 

Estou bem. Aqui. Estou bem aqui. Nesse lugar de onde é melhor não perscrutar até onde vai. Dar.

 

Em vinte minutos ligo.

 

Para saber se surgiram novidades. 

 

Beijos. Tchau. 

 

 

 

Imagem de Gerd Altmann por Pixabay 

 

 

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