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DESISTÊNCIA

07.07.2020

 

O problema era o frio.

 

Era o pé.

 

O problema era o frio no pé.

 

Foi ele que não me deixou me arranjar no amanhecer que tanto gosto e louvo. Hoje a doze graus. Ora, tinha conseguido dormir de meia noite às seis. Sem ser interrompida pelos fantasmas da madrugada. Este era o grande feito.

 

Agora restava-me cumprir as rotinas tolas que arranjei como minhas. Tomar um copo com água. E já colocar um tanto dela para ferver. Não numa chaleira antiga. Mas numa medíocre panela de teflon. E já café em xícara pequena (posso tomar um litro mas que seja em pequenos nacos) em mãos. Sairia nos recantos que pouco em pouco reconheço como os meus, como os que visitarei a cada amanhecer, como os que reconhecerei como a palma das mãos (essas desconhecidas), com o passar do tempo.

 

Mas o problema era o frio no pé.

 

Ele atravessava o chão pela minha pele – agora descoberta cheia de rachaduras – e chegava rápido à garganta. De lá irradiava-se por todo o meu corpo. Penso que chegava mais profundo. À alma. E me paralisava ante ao passeio pretendido.

 

Testei uma chinela. Rota. Com as tiras saltando de um lado a outro. Pisando-as, como andava acontecendo, calharia de me esborrachar no chão. Mas por esse motivo. Ainda não caíra de todo. Talvez uns quase. Talvez uns sustos. Talvez uns impedimentos. Talvez pelo santo ser forte. O anjo estar atento. E eu não andar só.

 

Onde estariam os meus protetores àquela hora da manhã? Por que razão não tiravam dos meus pés, o frio?

 

Mas era muita importância aos ares gelados. Eu os enfrentaria. Abrindo as janelas ainda despercebidas. Escancarando a porta. Saindo por ela. Até o lugar que me poria frente a frente com o vento gelado.

 

Fui descalça. Larguei as chinelas no meio da sala. Era lá que já estavam. Onde parecem agora escultura inerte que nada diz. Um desarranjo no chão firme. O formato do meu pé – gelado – esculpido ali. Escondido nas montanhas como as múmias geladas das entranhas do Everest.

 

Sim. Fui lá fora. Fui descalça. Procurei um raio de sol forte o suficiente para romper a copa das árvores e chegar a mim.

 

Era fraco o sol.

 

Eu também era fraca.

Sabia que o problema era o frio no pé.

 

Mas fui incapaz de acabar com ele. O problema. Porque, ademais, sou incapaz de acabar com a maioria dos problemas.

 

Queria que a pele se acostumasse. Fingisse não ver. Intentasse não sentir. Desejasse ser maior. E mais forte. 

 

Tomei café. Reforcei os casacos.

 

Mas o pé.

 

Continuava desnudo. Pisando a superfície indiferente. 

 

Olhei a chinela abandonada.

 

Tomei, por fim, as botinas.

 

Desde sempre estiveram lá como a salvação possível. Porque, ademais, sou incapaz de enxergar a salvação possível.

 

De casaco. De pés calçados. Café nos lábios.

 

Eu senti frio.

 

O problema agora eram os dedos das mãos.

 

Batuquei-os no teclado.

 

Entorpecidos, obedeceram.

 

Mas dormentes.

 

Desistiram.

 

O problema agora era o vazio.  

 

 

 

 

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