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D'ACCORD

11.03.2020

As três primeiras letras da palavra Coronavírus são as mesmas que compõem a etimologia da palavra coração. Do latim cor, cordis. A semelhança acaba aí. Porque ao ser confrontado com o vírus, declarado como pandemia, o mundo tem se distanciado do sentido evocado quando se fala em coração. Ou do sentimento que se convencionou entender produzido no músculo involuntário. 


Minha irmã antecipou, semana passada, uma determinação que chegara à Suíça, país onde ela mora. Até aqui não soube se naquele momento já era recado para a Europa e mesmo para o mundo todo. Mas era peremptório. As pessoas deviam evitar cumprimentos efusivos que incluíssem o toque de mãos, beijos. E, o pior, abraços. 


A escola da minha filha enviou correspondência eletrônica com dicas para prevenção do contágio e sobre como proceder face a sintomas que indicassem a possibilidade de se portar o coronavírus. E lá estava o mesmo conselho europeu. Uma forma de ficar longe dele seria cumprimentando o outro à moda oriental. Mãos postas. Leve flexão do tronco. Podia ser sinal de reverência. Mas indica distanciamento. 


E de repente nos assustamos com a nossa verdade. O brasileiro é um povo que gosta de usar o tato. Que pega na mão. Beija. E, o pior, dá abraço.  


Poxa vida. Como cometemos esse erro por tanto tempo? Como passamos a vida toda ignorando os riscos implícitos no contato físico? Como se usou bucha de lavar louça? Como se usou escova de dentes? Como se trabalhou com um colega do lado? Como se frequentou lugares públicos? Como se viajou de avião? Como se acionou o botão do bebedouro? Como se utilizou o caixa eletrônico e votou nas eleições por meio da biometria? Como se foi em shows para grandes públicos? Como se apostou com as amigas e amigos para ver quem beijaria mais no carnaval? Como se viveu até aqui? 


O corpo. Esse bastardo. 


A mão, melhor amputada. Como proposto como paga para políticos corruptos. Desavisados. 


A coragem de se chegar até aqui. Anda cedendo espaço. Aterrorizados, nos isolamos. Isolados, revelamos o genoma próprio. Da solidão. Da indiferença. Da separação. Da apatia. Da distância. Do preconceito. Do dissenso. 


É como nos filmes. É como nos livros. É como na arte. Porque é a vida. Talvez a que sempre desejamos. A que contém uma não-existência. Um automatismo que prescinde de quem não seja nós. Que desdenha. Do calor. Do toque. Do amasso. Do estar junto. Do beijo. Do abraçaço.  Acabou, Caetano. Ainda bem que você cantou assim antes. Hoje, seria defenestrado.


A justiça mandou. Os governos também. Que sejam apartados os leprosos de agora. Quarentena. Confinamento. É direito difuso. Política pública de saúde. Amém.  


Abraço é o pior do contato. Não viu o que aconteceu ao médico que tascou na entrevistada um negócio desses, eca, abraço? Em uma semana foi herói nacional. Na outra, bandido caçado. Procuram-se os braços que abarcam. Enlaçados. 
Não se sabe se o abraço de Dráuzio virou crime por ter despertado nas pessoas uma solidariedade tomada de assalto. Que não se tem com quem está perto. Mas por carta seria postado por quem agora se descobriu enganado. 


As estatísticas. Que nunca dizem toda a realidade. Mas pelas quais dá para saber por alto. Mais de 3 mil mulheres mortas. Nos últimos três anos. Por seus companheiros. Ou ex. Vinte e três mil jovens negros assassinados por ano. Crianças e adolescentes de até treze anos. 53% das que são.  Estupradas por seus tios. Pais. Padrinhos. Padrastos. 


Pena de morte para o abraço. 


A família de bem.   


Acredita que convém. Culpar os braços. 


Para quem não tem cor. Os traços esmaecidos. Os ultrajes esmiuçados. 


O coração. 


Atacado. 


Tomado pelo Coronavírus.


Parou.


Tombou. 


Desabitado. 


Ei! Hoje eu mando um abraçaço. 

 

 

Imagem de Gerd Altmann por Pixabay 

 

 

 

 

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