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A TRANSFORMAÇÃO

O encontro foi como o possível.

De longe. Pela tela. Pelo olhar demorado. Pelo silêncio repleto de escuta. Pelas palavras cheias de sentido – fossem poucas, vindas como a conta-gotas, fossem em histórias longas, inspiradas, inspiradoras.

O encontro foi como o possível.

E se ela desejou fazer. Comer. Pipoca.

E se ele fez que sentiu o cheiro. Deixou a boca encher-se de água. Desejou o mesmo. Procurou no armário. Achou. E fez estourar o milho.

Foi uma festa o alimentar-se. De longe. Pela tela. Pelo barulho. Pelo esparramar das flores brancas corpo abaixo. Pela tentativa de acertar uma delas na boca aberta que se via do outro lado.

E se foi de sorrisos a brincadeira.

E se foi a fome o que fez aquilo tudo começar.

Tinham já. O alimento. Para o corpo. Para a alma. Dos dois. Já em conexão. Não apesar. Mas também. Por causa dela. A distância.

Era preciso permitir outras formas.

Outro caminhar. Encontro. Desencontro. Na paciência. Necessária para o ajuste da rota.

Naquela madrugada. Foi de pipoca.

A pipoca rito. A pipoca ritual. A pipoca que sacraliza. A pipoca que reverencia.

A pipoca-símbolo. De resiliência. De transformação. De renascimento. De ressignificação.

A pipoca feita assim pelo efeito do fogo. Ele matura. Madura. Apronta. Aquece.

Precisa de seu tempo certo. Para não passar. Para não queimar. Para não desandar. Para não ser esquecido. O conteúdo.

Precisa de ajustes na temperatura. Alta para ferver. Média para dar o ponto. Branda ao final. Para a manutenção. De texturas. Para o apuro. Do sabor. Para o agarrar-se. Do tempero.

O antes milho. Tão ressequido. Sequioso de ser outro. Desinformado da sua possibilidade. Semente. Esperando. Terreno fértil. Fogo. Para abrir-se. Florescer.

Na madrugada, brilho. De experimentos.

Mãos cheias.

Uma por uma.

Boca esborratando.

Excesso.

Desperdício.

O encontro foi como o possível.

De longe. Pela tela. Pelo olhar demorado.

A cena era inesquecível. Ele era bonito. Comendo pipoca.

Ela sabia.

Ele sabia.

Comida nunca é só comida.

Pipoca não era só pipoca.

Para quem saúda os Erês. Para quem pede licença ao chegar. Para quem oferece balas e moedas.

A pipoca era o corpo dado em sacrifício. Sacro. Oficio. Cio. Pipoca.

Como disse Rubem Alves, “a transformação só acontece pelo poder do fogo. Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho de pipoca, para sempre. Assim acontece com a gente. As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo. Quem não passa pelo fogo fica do mesmo jeito, a vida inteira”.

Comendo a pipoca. Cada um a seu jeito. Cada um no seu canto.

Aqueles dois se faziam passar pelo próprio fogo. O mesmo em que se colocaram. Em que se permitiam estar. Para deixar acontecer uma transformação. Barulhenta como pipoca na panela. Saltitante como o minuto do espocar. Apetitosa como a que se se mastiga. Melada. Como os dedos lambidos de sal.

Como disse Rubem Alves, “o milho da pipoca não é o que deve ser. Ele deve ser aquilo que acontece depois do estouro”.

Aqueles dois se calaram. Para ouvir os seus barulhos.

Imagem de Leonardo Alvarado por Pixabay