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ARTE NA CIDADE

29.01.2020

São dois minutos. Mas os dez segundos acrescentados – na mudança de cidade – é que fizeram diferença.

 

No fio da navalha. No arame. Na corda bamba. Na mira. Em (des)equilíbrio fino. 

 

Ali. Parado no cruzamento. Ali parado na faixa de pedestre. Onde estaria em segurança. Não fosse a gente que anda apressada. Despida de qualquer humanidade. Que brinca de acelerar. Assumindo um dolo, portanto. Tão real quanto pode ser uma escorregada no acelerador. Uma colisão traseira de alto impacto.

 

O imprevisível. O impensável. Qualquer gesto ou movimento não previsto - não ensaiado. Acrescentado. Caco. Vindo de pessoas desautorizadas a assumir lugar que não seja de plateia - desbancaria o artista. Jogaria sua arte no chão.

 

Talvez isso o atraia. O medo. Os olhos nos olhos com perigos insuspeitos. O estar, de forma tão lúdica, desafiando a morte, afinal.

 

É isso que se faz depois que se perde a casca. Depois de expelido pelo útero. Depois que se vem à luz. Aproxima-se do fim. É o ciclo. De vida. Da vida. Nascer. Crescer. Reproduzir. Envelhecer. Partir. Pelo menos era isso que estava escrito nos livros da escola.

 

Mas e se quiser pular alguma etapa? E se quiser sempre ensaiar a chegada à última? Não. Não vinha daí sua motivação. O seu querer. Tampouco sabia o lugar exato.

 

Desistira há muito de saber. De perscrutar. Como, ademais, havia desistido de tantas outras coisas.

 

Gostava do processo. Era instigante. Perturbador. Não tinha manual. Nem resposta pronta. Desenrolava-se tal novelo à medida em que enfrentava. O processo. A prática. A criação de nova coragem. Para chegar até aonde pouco tinha ido daquela forma. Nova.

 

As interações possíveis ou inéditas - a melhor parte. Ou boa parte do melhor. Conclui. Antes, preparar-se. Aquecer o corpo. Afiar a mente. Colocar-se em prontidão. Aprontar-se para os improvisos. Apropriar-se do ‘entre’ para tirar dele. Ou colocar nele. O que não está dito. O que não foi pensado. O que não estava escrito – ensaiado, decorado. Deixá-lo comandar o espetáculo.

 

É no não-lugar que sua atenção se fixa. O público faz parte da cena. Mesmo que não saiba. Mesmo que não queira. Mesmo ao ser pego de surpresa. Mesmo quando rechaça. Mesmo quando acelera. Mesmo quando ameaça. Mesmo se fingindo indiferente. O meio une os dois lados.

 

Ali parado. No cruzamento. Na faixa de pedestre. Não está sozinho. Há hierarquias. Faunas. Floras. Biodiver(cidade). Lugar onde forja uma sabedoria chegada há pouco. Ou vinda do sempre. É necessário conhecer o chão que pisa. Mesmo quando por ele seja derrubado. Nada sai como queria. É desbancando.

 

É preciso saber quem cumprimentar. A forma de fazê-lo. Fingir-se invisível para não ferir supostos desafetos – enciumados pela divisão compulsória do espaço. Aceitar quando é invisibilizado.

 

É preciso criar padrões – muitas vezes frustrados – sobre comportamentos. Meios de transporte. Idade. Gênero. Horário.

 

Não. Não pensava na morte quando aceitou o desafio. É muito vivo. No fio da navalha. No arame. Na corda bamba. Na mira. Em (des)equilíbrio fino. Recebe os aplausos.

 

Nos dez segundos acrescidos. É remunerado.

 

No fim da tarde. Parte. O artista. De rua. Da rua. 

 

 

Imagem de Gerhard Gellinger por Pixabay 

 

 

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