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RETRATO FALADO

13.01.2020

 

Olha aqui. Meu corpo não tem Photoshop. Tem marcas. Cicatrizes. Buracos. Calos. Cansaços. É revestido por pele preta.

 

Olha aqui. Não sou bibelô. Tenho unha descamada. Sinal de carne. Deficiência de ferro mal curada. Cabelo branco. Mancha branca no queixo – nunca diagnosticada. Mancha preta – comum em melanina acentuada.

 

Olha aqui – minha barriga já não é chapada. Já foi bola de sopro para suportar a feitura estada chegada – de uma filha vingada.

 

Olha aqui. Não sou virgem. Talvez apenas mulher abençoada. Tenho uma fenda. Já fui penetrada.

 

Olha aqui. Estou suada. Escorro água. Salgada. Muco. Sangue. Quando estou menstruada. Gozo. Quando sou bem-amada. Bem-comida. Bem-tocada.

 

Olha aqui. Minha mão treme. Só a direita. A esquerda, resguardada. Coisa de quem escreve. Papel. Caneta. Pouco afiada. A boca que beija é a mesma que escarra.

 

Olha aqui. Tenho estrias. Pele esgarçada. Já fui toda inteira. Mas o tempo passa. E a gente fica alquebrada.

 

Olha aqui. A pele que sustenta os meus peitos ficou pesada. A fartura deles deu lugar a uma versão abreviada. Dei de beber comida a uma humana – bezerra que foi a mim agarrada. Se eu deitar eles vão sumir. Não tenho borracha a mim acoplada.

 

Olha aqui. Meu nariz já cresceu. A mentira quem diz de mim sou eu. Não que seja Pinóquio. Só alguém que amadureceu. As orelhas, não medi. Mas o furo delas não desceu. Ainda uso uns penduricalhos. Verde que é bom. É meu.

 

Olha aqui. Tenho pelos nos braços. Mas ao contrário do que diziam as amigas na infância, não sou macaco. Ou talvez seja o parentesco o que me faz pular de galho em galho.

 

Olha aqui. Tenho pulmão fragilizado. Preciso de ares. Levo as tristezas todas para respirar por dentro. E elas se vingam, deixando-os cansados.

 

Olha aqui. Tenho olhos apertados. Sangues ancestrais transfundidos transplantados. Me chame índia. Preta. Negra. Cabocla. Ou tudo misturado. Sou filha de Manoel e Maria. E mais quem esteve antes, abrindo o caminho do passado.

 

Olha aqui. Para a minha boca. Parcas palavras. Pensamentos desarticuladas. Sorriso amarelo. Dentes enferrujados.

 

Olha aqui. Essa sou eu. Agora. Soma de passado. Futuro. Presente. Outrora.

Não me invente. Não me crie. Não me rabisque. Não me aquarele. Não me apague. Ajuste o foco. Veja com nitidez. Não sou o que pensas. O que queres. O que crês.

Sou esse rabisco. Que eu mesma desenhei. Não me reescreva. Não sou fábula. Sou notícia de jornal. Nua. Crua. Sem versão final.

 

Olha aqui. Sem projeção. Sem expectativa. Como aprendi com Buda. Você não? Não preciso do espelho de alguém. Meus reflexos eu mesma estudo. Escuto. Ausculto. Um dia tiro nota cem. Sou a mulher que sabia javanês.

 

Olha aqui. Me vês?

 

 

Imagem de Gerd Altmann por Pixabay

 

 

 

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