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SÃO JORGE NO ALTO PARAÍSO

09.01.2020

Saudei o novo ano. Batendo palmas. Dando vivas.

 

Pés no chão.

 

Chão batido. Da Vila. De São Jorge. Nem no baixo. Nem no meio. Mas no Alto Paraíso.

 

Eu podia ter proclamado.

 

Eu estou vestido
com as roupas
e as armas de Jorge
para que meu inimigos
tenham pés e não me alcancem
para que meus inimigos
tenham mãos e não me toquem
para que meus inimigos
tenham olhos e não me vejam
e nem mesmo pensamento
eles possam ter
para me fazerem mal

 

Mas não lembrei.

 

Agradeci. Por estar ali. Por estar com minha filha. Por ela estar de pés no chão. Chão batido. Da vila.

 

Olhando os fogos que pipocavam coloridos a duas ou três ruas. Ou até menos. Na praça.

 

Não queríamos muito. Mais. Do que aquilo.

 

Ou nada mais.

 

Só aquilo.

 

Nos tomava. E fazia bem.

 

Estávamos fora da nossa zona de conforto. Embora confortadas. Em certa medida, confortáveis.

 

Acampadas junto a dezenas de pessoas. Algumas que se tornariam conhecidas. Outras que se mantiveram no anonimato de suas vivências.

 

E talvez já tivesse, àquelas alturas, parado de fazer a contagem regressiva. Para quantos dias ainda teria ali. Para a chegada do dia de ir embora. Alguém tinha me alertado. Ia passar. O estranhamento. E a partida seria até lamentada.

 

Não cheguei a lamentar quando entrei no carro. Dia dois. Mas ante a pergunta. Não. Não topei ficar mais. Estava já bem programada.

 

Refleti sobre o que me incomodava. Ou me assustava. Em um programa como aquele.

Pensei que é ter a obrigação de fazer algo. Hoje é dia de tal cachoeira. E se eu não quiser ir? Se não quiser cumprir todo o roteiro que me fará chegar até lá?

 

Um dia disse não. Mas fui desconvencida. Dei uns pitis. Que não era respeitada. Que não era ouvida. Que minhas escolhas não eram levadas em consideração. Disse ao meu amigo que não bastava não ser machista. Tinha que ser antimachista, parafraseando Angela Davis, em declaração sobre racismo. Que ele me perguntava. Ouvia. Mas na decisão. Na hora da decisão. Era a escolha dele que prevalecia.

 

Ele me chamava de Valdirene. Valdinéia. Me dizia para voltar pro corpo. Pra cantar pra subir. E a gente ria. Naquela hora. Ou um pouco depois. Quando a poeira dos humores tortos baixasse. E no fim, no fim mesmo, trilha feita, cachoeira vislumbrada, encharcando-me o corpo, eu pensava. Por que? Por que minha recusa. Por que a resistência. Foi bom, afinal. E valeu.

 

Refleti muito. Sobre a fama que a viagem tem de destruir amizades. E outras relações. Reflito muito. Sobre nossa dificuldade (humana) de interagir. Resolver conflitos. Ouvir sim. Ouvir não. Ouvir talvez. Buscar consenso. Se contentar com dissonâncias. Dissensos. Rupturas. Distopias. Muito mais em ambientes viajantes. No trânsito. Entre conhecido e desconhecido. Entre o que consideramos nosso. E o que é apenas passagem. Paisagem.

 

Voltei mais madura. Mais autoconhecida.

 

P.S.: E um pouco satisfeita. E/ou amedrontada. Por ter protagonizado dois B.Os  - ainda que discretos. E só chamados assim, carinhosamente, por mim.

 

Gritei com um homem que bateu e chacoalhou uma criança. Lembrei-lhe da existência da Lei da Palmada. E ele e mais outro e mais a mãe e mais a avó, quando reconheceram de onde vinha a voz, disseram que queriam ver quem era a pessoa de fora a ensinar-lhes como educar o rebento. E eu respondi: A Lei. A Lei. E qualquer um de nós que se dispuser a lhe prender até a chegada das autoridades.

 

O cara saiu. Mas voltou. E eu tive medo. E descobri a razão de as pessoas não gritarem. Mais. Podem ver o mundo se acabando. Que não gritam. Não se mexem. É medo. Ninguém está dando mais a vida por valores. Assim de mão beijada.

 

O outro foi por ter identificado um comportamento racista e ter deixado para lá. E depois voltar no lugar. E mandar a real.

 

Antônio Jacinto Índio

 

 

 

 

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