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MINHA MÃE MARIA

23.09.2019

Minha mãe apareceu nas Redes Sociais. Não por escolha própria. Fotos suas recebendo, não apenas em sua casa, mas em seu quarto, o governador da Paraíba e outros correligionários, foram postadas por meu irmão, também político, em algumas contas mantidas no mundo virtual. As imagens deixaram minha irmã atônita. Desde então, em diversas abordagens no grupo que mantemos para reunir a família, deixa claro o seu incômodo. Segundo ela, mamãe teria sido exposta de uma forma com a qual não se expunha na rua. Não era a imagem que passara a vida toda. Nem a que gostaria de passar.  Pelas fotos via-se uma Maria Barbosa com um sorriso pouco alvissareiro. Porque acabara de se acordar e lhes faltava dentes. Ela está fazendo um longo e sério tratamento, que inclui implantes e os tempos necessários para a conclusão do processo. Ela estava sem maquiagem. Pelo mesmo motivo. Porque acabara de se acordar. Ela estava com os fios brancos escapando das raízes dos cabelos. Disponíveis a quaisquer olhares. Mais ou menos acurados. O motivo era não ter ido ao salão no tempo exato em que os brancos venceram a tintura que os encobre. Ela estava curvada. Talvez não tenha tido força ou tempo para sequer levantar-se. Ela tem feito, em grande parte do tempo, da cama a sua companheira. Passa longos períodos lá e é de lá que interage com o mundo. Seja atendendo telefonemas. Seja recebendo visitas. Quando eu vi aquelas fotos nas Redes Sociais, pensei o mesmo que minha irmã. Que elas passavam a fragilidade de nossa mãe. Mas não levantei bandeiras. Achei a cena parte do humano. Demasiado humano. Minha mãe foi o que foi. Uma mulher aguerrida. Forte que só. Incansável. Invencível. Solidária. Amiga. Vaidosa. Campeã na arte de enfrentar problemas. Imbatível na capacidade de levantar, sacodir a poeira e dar a volta por cima. Cuidou dos outros. De uma cidade inteira, na condição de vereadora por sete mandatos e 32 anos consecutivos. Cuidou de uma família inteira. Na condição de filha mais velha. Da mãe de 12. Da geradora de 14. Não gostava de se atrasar e nem faltar a compromissos. Podia ser vista às seis da manhã na Feira Central de Campina Grande e, às 20h, em festa badalada de casamento. Carregava consigo sacolas com roupas variadas, sapatos e seus saltos – aptos a situações diversas e adversas. Trocava a indumentária nas lojas de conhecidos. Ou no Posto de Enfermagem Manuel Barbosa, seu companheiro por quase 61 anos. Deixava chinelas escondidas em moitas no longo caminho que separava o ponto de ônibus mais próximo da nossa casa (distância de quilômetros que ela rompia a pé, na poeira da seca ou na lama dos tempos chuvosos) para trocar quando vencesse a estrada de terra. Minha mãe nunca foi só dela e muito menos só nossa. A casa sempre esteve cheia de familiares distantes. Amigos íntimos. Desconhecidos. Aos que pediam, ela distribuía nossos pertences – dos alimentos às roupas. Muitas vezes reclamamos a ausência do que era nosso, inclusive a privacidade, a uma mulher que se limitava a responder que não havíamos “puxado” a ela. E mais algumas frases de efeito. E outras bíblicas. Minha mãe é o que é. O resultado do tempo passado. E passando. Tem mais de 80 anos. Podia, mesmo com essa idade, ser tão vivaz e cheia de saúde quanto as velhinhas de Copacabana. Mas mamãe, precisamos aceitar, é sim, uma velhinha. Do Sítio Guabiraba. Que pouco estudou e por isso tem pudor em escrever e mostrar ao mundo sua caligrafia (linda aos meus olhos e aos de minha irmã Vitória). Que realizou trabalho infantil. Que levou bordoadas de cipó quando sua pouca idade apontava a inabilidade para o trabalho na roça. Minha mãe é essa. Sempre foi à frente de seu tempo. Por isso, atropelada por ele? Sempre viveu o agora. Chorou quando era para ter lágrimas. Sorriu no tempo de sorriso. Fez festas. Se vestiu de xadrez. Soltou fogos. Alimentou centenas. Cuidou de materializar impossíveis. Cuidou de tudo. E de todos. E, talvez por isso, tenha esquecido de cuidar-se melhor. Minha mãe carrega muitas dores. Físicas. E emocionais. Algumas é possível que nem conheçamos. Minha mãe abarca muitas perdas. De pessoas que amou e ama. Minha mãe é ainda admirável. Potente. Quando dá na telha, vence a cama. Sorri largo. Arruma-se com os bordados que adora. Põe os sapatos Flex possíveis para a sua idade. Pinta as raízes dos cabelos. O rosto. As unhas. Vai às ruas. Onde recebe doses extras de carinho, estima e respeito. Acho que ela não se chateou em aparecer daquele jeito na Internet. Ela também é daquele jeito. Porque somos tudo em um só corpo. Luzes e sombras. Porque nem sempre estamos nos “trinques”. Mas o importante é estar. É ser. Ela sabe disso. Só não tem jeito para a morte – gosta de repetir. A canção diz que um homem com uma dor é muito mais elegante. Minha mãe reveste-se com todas as suas e enfrenta o mundo ao seu modo. Com as forças que tira de lugares desconhecidos. Mas existem. Não à toa. Chama-se Maria.

 

 

 

 

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