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O ENTENDIMENTO

05.08.2019

Foi preciso entender muito (embora aos poucos) sobre ser mulher.

 

Poderia ser óbvio. Mas não era.

 

Não tinha manual. E, muitas vezes, os segredos menos secretos, como os que tratam de prazer. Fertilidade. Ciclo. Hormônio. Eram trancafiados a sete chaves por suas guardiãs – em geral, mulheres mais velhas. Cuidadoras. Mães. Tias. Avós. Primas. Agregadas. Gente que gostava de falar. Tagarelar. Fofocar. Engendrar ideias. formular maquinações. Mas que silenciava sobre coisas. De mulher.

 

Todo mundo sabia as razões. De certos acontecimentos na vida de uma mulher. Todo mundo sabia dos ritos. Dos rituais. Das histórias repetidas. Seus começos. Meios. Finais.  Menos a pobre menina, mal saída da infância. Passos trôpegos ainda em direção à adolescência. Onde chegaria capengando. Desinformada de tudo. Querendo conter desejos. Fluidos. Pulsações. Atrações. Orgasmos involuntários. Sonhos eróticos.

 

Onde chegaria querendo revidar olhares invasivos. Querendo estancar gestos indiscretos. Querendo recusar convites sinceros demais para que fossem verdadeiros.

Foi preciso entender muito (e isso só aconteceu aos poucos) sobre ser mulher.

 

Quando arrebentou sangue no meio das pernas. Quando precisou ter informações mínimas sobre o fenômeno. Como lidar com ele. Foi quando desaprendeu a andar. Achando que havia um caminhão dentro da calcinha. E que todo mundo via aquele volume. Foi que começou a perceber.

 

Uma mulher era feita de tempos. Os tempos de secura. Os tempos de umidade. Os tempos de apatia. Os tempos de abundância de quereres. Eram ciclos. Eram como a lua. E com ela tinha muita parecença.

 

Chegam. Diminuem. Abundam. Somem. As engrenagens que compunham o ser-mulher.

 

Foi preciso entender muito (e isso acontece até hoje) sobre ser mulher.

 

Se tivessem contado que o desejo em momento inadequado era punido - fardo de mulher. Que liberar o corpo para os sentidos era arriscado. Se tivessem contado que aquele sangue era como o marcador de bomba-relógio. Que sua hora. Em ponto. No ponto. Fazia crianças gerarem outras. Se tivessem contado. Não teria. Ido. Dominaria impulsos. Estancaria o vermelho viscoso. Não mataria sem dolo.

 

Segurou firme no veículo-corpo. E se pôs em movimento. Junto com ele. Nem antes. Nem com atraso. Junto. Girando suave a cada curva. Junto. Estancando abrupta a cada freada. Junto. Correndo quando a via permitia acelerar um pouco mais. Junto. Diminuindo a marcha diante de algum obstáculo. Junto. Era como queria ser. Estar. Ora quieta. Ora uivando. Ora abrindo as pernas. Ora descansando do movimento. Ora Como morta. Ora como ausente. Ora absoluta presença.

 

Foi preciso entender muito (e isso acontece a todo instante) sobre ser quem era. Mulher.

 

Apurou os ouvidos para o que lhe dizia o ventre. E as partes. E os sucos. E os sulcos. Vãos. Buracos. Entranhas. E seus complementos. Enchimentos. Ausências. Faltas. Lacunas. Falos.

 

Gozou. Sem culpa. Sorriu. 

 

 

 

 

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