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MEU DESTINO

19.07.2019

Do banco do motorista, onde estava sentado, ele se virou de lado. Olhou-me nos olhos. Deu um efusivo e seguro aperto de mãos. Finalizou dizendo: Muito incrível.

 

Sorri. E poderia dizer o mesmo. Mas perguntei seu nome.  Júnior perguntou de onde eu era assim que entrei no seu carro. Foi chamado pelo aplicativo e parou na quadra em frente a que eu realmente estava. Então, eu já cheguei perguntando: Não quis ir para a dezesseis? A sua explicação e mais as respostas que dei, ambas não tão longas, foram o suficiente para que me perguntasse:

 

- E a senhora é de onde, Dona Waleska? Com esse sotaque?

 

Aí, já fiquei de má vontade. Porque sabia que as próximas coisas eram: Mas está aqui tem pouco tempo, né? Há 19 anos e não perdeu o sotaque? E eu desfiaria meus argumentos para esta ocasião. Que eu não tinha que perder nada. Que em um país desse tamanho não tinha razão para fazermos pouco do jeito de falar que não fosse o comumente aceito. Respondi a contragosto, mas com alguma gentileza.

 

- Eu? Eu sou paraibana.

 

A resposta que veio também não é incomum. Mas me pegou de surpresa. – Pois eu também. E de que lugar a senhora é, dona Waleska?

 

- De Campina Grande.

 

- Eu também.

 

O que veio depois e continuou até que desci do carro ainda sentido o seu cumprimento em minha mão direita, foi uma longa troca de memórias afetivas, de risadas de nós mesmos, de busca por expressões idiomáticas que usamos por aquelas bandas.

 

Junior contou que o irmão “tirava onda” porque um dia o chamou para o “moído” e ele não sabia se aceitava ou não por não entender o significado da palavra. – Oxe, moído a gente adora. Faz parte do vocabulário da família, disse eu. E completei: Pense, num moído. (Pronunciado com u. Muído).

 

Júnior ria. Disse que estava arrepiado quando nosso assunto enveredou por comidas brutas, como eu chamo, e que adoro. Buchada. Picado. Bode. Mocotó. Xerém. “Olha, Júnior, tem dia que eu fico louca, querendo ir numa feira, comer essas coisas”.

 

E ele completou dizendo que bom mesmo é o mocotó que não passa pelos efeitos da indústria alimentícia. Sem sal. Sem embalagens sufocantes. Coisa que só se vê lá nas nossas bandas mesmo.

 

Ele está no Distrito Federal há 23 anos. “Bebeu a tal água”. A que as pessoas dizem que existe por aqui. Se provar, não sai mais. Mas vai todo ano no seu torrão. “Dançar um forró”.

 

Comentou como as pessoas daqui são diferentes. E nisso concordei. Contei que quando quero rir à toa fico lembrando do jeito espontâneo e divertido de nossos patrícios. “Eles pensam que aqui não tem sol. Nem comida. Onde a gente chega, tem que comer um monte”, contou o motorista como se me dissesse alguma novidade. E eu: – É a gente engorda quando vai para lá. Mas tem que aproveitar mesmo. Cada coisa boa. E aquele inhame, que aqui não tem?

 

Foi quando lembrei da mesa farta da casa dos meus pais e do hábito que minha avó adquiriu, quando começava a caducar, de chamar quem passava pela rua para tomar um cafezinho. Com isso, passou a ser furtada por convidados argutos. Foi quando deixou de morar no seu cantinho e se juntou a nossa família.

 

Ao chegar, estava mais próxima de mim do que a qualquer lugar onde Júnior pudesse ter me levado de carro, sob a alcunha de “meu destino”.

 

Foto: César de Cesário 

 

 

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© 2017 por Waleska Barbosa. Orgulhosamente criado com Wix.com por Mauro Siqueira.

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