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DESAPEGO

30.05.2019

Estão dispostos em mesa de madeira com detalhes em azulejos floridos. Combinam-se. Parecem feitos uns para os outros. Dispostos desse jeito sobre a mesa, despertam desejo. Filas. Ainda que virtuais.  

 

Branco. Azul. Creme. Ou pelo menos, assim me parecem suas cores. Penso no motivo do descarte. Olhando assim, parecem vistosos. Sem avarias graves que pudessem comprometer seu uso. Apuro o olhar para adivinha-lhes de qual matéria-prima foram confeccionados.

 

Imagino quanto suor já lhes encharcou. Em ocasiões em que deviam proteger o usuário dos raios solares. Penso quantos sambas testemunharam, fazendo parecer exímio sambista, quem os exibiu pelas ruas de Brasília. Ficariam bem também em redutos boêmios do Rio de Janeiro. Em passeios indolentes pelas calçadas da Avenida Paulista, em domingo abafado. Capaz também de terem poder sobre chuva. Neblina. Garoa. 

 

Interesso-me por descobrir nas costuras e detalhes em couro, se foram feitos à mão. Encomendados a profissionais renomados que, vez por outra, surgem imponentes e famosos por terem reabilitado claudicante profissão. Ou se dão mostras, por outro lado, de terem sido paridos às centenas. Em galpões de escravizar gente que ganha pouco. Trabalha muito. Made in China. Quem sabe. Ou fazendo jus ao apelido que levam alguns, naturais do Panamá. Agora, esforço-me por saber se poderiam ser panamenhos. Ou se há um modelo único que atende por esta alcunha.

 

Quantos sorrisos teriam essas peças encimado? Quantas lágrimas foram vistas lá do alto? Quantas quedas sofreram? Quantas mãos lhes acarinharam por motivo de amor ou saudade? Ou quais gestos os dispensaram para longe, como quem atira algo ao fogo algo indesejado? Em quantas camas. Cadeiras. Cabides. Mesas de madeira com detalhes em azulejos floridos. Repousaram?

 

Vistos assim, em trio, passam a ideia de que nasceram e cresceram juntos. Tais primos muito chegados. Poderiam até ter rompido da mesma barriga, trigêmeos. Separados por características que apenas os mais íntimos saberiam discernir.

 

Haveria um dia certo para cada um exibir-se na rua? Um servia ao frio. Outro ao calor? Uns para ocasiões solenes, como casamento ou velório. Outro para compromissos fortuitos como comprar um pão na esquina. Ou passear com os cachorros, na quase madrugada.

 

Por que, afinal, recebiam agora esse destino – um tanto cruel e solitário? Seriam substituídos por novos modelos. Outras padronagens. Tecidos recentemente entrados na moda? Quem, afinal, dedicara-se a adotá-los? Oferecer-lhes novas paragens. Quem os provaria. Aprovaria. E se olharia no espelho para assentir, sim, caíram bem. São meus.

 

Onde, afinal, circulariam a partir de agora? Saberiam os novos donos que deve haver cerimônia no seu uso? Que não devem ser tratados como algo comezinho, visto que fazem parte da história, não apenas de quem os doa, com certo grau de ingratidão, mas de toda a humanidade?

 

Poderiam vocês abrir essas bocas emudecidas, decerto pelo susto por terem sido preteridos, para acabar de vez com o mistério?

 

O que fazem? Choram? Agradecem pela melhor sorte? Lamentam-se ou festejam embriagados, a virada de rumo que a vida lhes proporcionou?

 

Ah, chapéus. Se suas bocas falassem. Agradeceriam - mãos postas. Ou bradariam a plenos pulmões um sem-número de palavrões contra quem, em certo dia de maio, anunciou no Facebook: Liberto três chapéus em bom estado.

 

 

 

 

 

 

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© 2017 por Waleska Barbosa. Orgulhosamente criado com Wix.com por Mauro Siqueira.

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