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APAGARAM TUDO. COBRIRAM TUDO DE CINZA

16.05.2019

 

Em sua Timeline, no FaceBook, uma amiga criticava a atriz Taís Araújo por ter apagado uma foto com uma mulher negra cuja história de vida interpretaria no cinema. Ela tinha o print da imagem, de toda sorte. Poderia provar o orgulho que a atriz já exibira por um feito que não chegaria a acontecer.

 

Bom mesmo seria que fazer graduação, mestrado, doutorado e pós-doutorado, não fosse considerado façanha digna de levar uma história de vida a ser contada nas telonas. Bom mesmo seria que a mulher negra estivesse onde quisesse estar, assim como se prega às mulheres em geral, e que esses lugares fossem acessíveis, naturalizados. Que ocupá-los fosse simples e indolor. Que estar neles não abrisse caminho para uma saraivada de atos/palavras racistas.

 

Pois bem. Descobriu-se que a mulher negra não fora exata ao contar sua história de vida. Os jornais se dedicaram a perscrutar seus relatos e documentos e, por fim, gostaram de alardear sua constatação. Aquela mulher, negra, mentira. Afinal, Harvard, estava na cara o tempo todo, não seria, assim, um lugar apropriado para uma mulher negra estar. Ainda mais fazendo um pós-doc.

 

Esses jornais se dedicaram, até com podcasts (para detalhar os bastidores da investigação), a explicar os pontos que os levaram à suspeição, seguida por muitas tentativas de comunicação com a intocável Harvard e seus discentes, o que os levaria à verdade, essa virtude tão almejada. Não. Não havia o pós-doutoramento. E se houvesse, não seria como a mulher negra narrou. Ela, a mulher negra, sequer sabia a logística de um.

 

Pediram explicações à mulher negra. Ela as deu. Disse que o diploma americano exibido era fictício, parte de cenário de peça teatral. Caiu nas mãos de seus algozes, digo, seus entrevistadores e, depois, ela não conseguiu reverter a situação. A outro veículo, disse ter se empolgado. Ora, até uma mulher negra sabe. Os efeitos de uma mentira repetida até virar verdade. São grandiosos. Levam a lugares nunca dantes imaginados. E se o artificio está nas hostes mais poderosas do país, da imprensa ao Palácio do Planalto, por que ela, uma mulher negra, não poderia fazer uso do artifício?

 

Em um dos jornais, fica esclarecido: sim. Ela tem graduação. Mestrado. Doutorado. Faz a pesquisa que diz fazer. Dá aulas onde assegurou que o fazia. Mas criou o lance do pós-doutorado. E, sendo assim, deve ter criado muitas outras coisas que, talvez, a imprensa se dedique a descobrir quais são ou foram. Se ainda quiser gastar tempo e credulidade com uma mulher negra.

 

Agora é que ela vai conhecer o inferno. Se teve quinze minutos de fama, há de amargar um resto de vida toda de padecimento. Agora, vai voltar ao seu lugar de pária. De quem tem pele preta. Afinal, o que queria ela com esse atrevimento de ocupar cadeiras na academia e em postos de trabalho que não são os destinados a gente como ela?

 

Seria cômico se não fosse trágico. Silenciaram os produtores. Sumiu com a foto que a ligaria a uma mentirosa, a atriz. Não houve empatia. Relativização. Apagaram tudo. Cobriram tudo de cinza. Só restou no muro. Tristeza e tinta fresca. 

 

Qual é, afinal, o pecado da mulher negra?

 

Foto: IFG

 

 

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© 2017 por Waleska Barbosa. Orgulhosamente criado com Wix.com por Mauro Siqueira.

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