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ENGASGO

06.05.2019

Amanhecera. Ela sabia. Não por ter acordado junto com o dia. Ao contrário, mantinha os olhos fechados. O corpo rijo sob o cobertor. Mãos rentes ao tronco. Pés recostados. Os nervos não responderiam a um teste de reflexos. A noite permanecia dentro de si. Era como morta.

 

Ela sabia. Pelo cheiro sorrateiro que as frestas da janela exalavam. Vapor de noite em despedida. Acordar de aves. Assombro de pequenos insetos descobertos pelo claro, buscando, tontos, seus buracos. Teias. Tocas. Como também ela desejava buscar para si.

 

Ela sabia. Por causa de um relógio biológico insurgente. Omisso ao seu não querer. Se era como morta que se sentia, assim gostaria de permanecer nas horas recém-desnoveladas. Eram poucas ainda. Seriam muitas mais tarde. Queria estar imune ao tempo do mundo. Refugiada em si.  

 

Pensou no que diria a mãe. Católica. De domingo na missa. Dos outros dias na bíblia. E todas as palavras. Provérbios. Salmos. Ameaças. Castigo/juízo final. Deus tá vendo. Bem-aventurança. Para os escolhidos. Reencontro. Ressurreição. Deus tá vendo.

 

A mãe. Ela usaria, primeiro, tom cordial. Depois, berros. Como faz o pastor no culto evangélico. Pelo menos era o que via na tevê. Não sabia a razão de pastores agirem de forma exaltada. Ferindo tímpanos. E os decibéis previstos em Lei. Preferiria o tom dos padres. Mas as amenidades já teriam sido descartadas.

 

Era tão previsível, a mãe. Sabia que dali a instantes, giraria o trinco sem mesuras. Colocaria a cara para dentro. Bicho desafiado. Olharia com grandes bolas de quase fogo.

 

Não podia mais estar morta.

 

Pensou no pai. Ao contrário da genitora, ele nunca se repetia. Por vezes, só para saber o que viria, ela criava problemas. Fazia indagações. Esperava a resposta, dita do alto. Pensada a partir da sabedoria que ele carregava.  

 

Então, o que ele diria ao vê-la como morta? Talvez julgasse que não havia razão para intervir. Talvez silenciasse. Esperasse as coisas se arranjarem por si. Ele também era dado a silêncios.

 

Mas aquele silêncio. O último. Ininterrupto. Trancado a sete palmos. Engavetado. Encaixotado. Aquele silêncio cortado apenas pelo tilintar cortante da ferramenta enferrujada contra o tijolo molhado pela chuva de mais cedo. Manuseado por alguém que tinha como profissão ser coveiro. Aquele silêncio era uma traição. Punhalada. Estava decidido. Traição das bravas.

 

Sem planejar, refez o dia de ontem. Hoje, o inchaço nas pálpebras. A sensação de acordar de pesadelo. O perguntar-se se tinha acontecido. O lamento pela certeza da resposta. O que diria ele. Queria saber. Tinha o direito. Ele não. Ele não podia ter ido sem deixar como herança tudo o que diria.

 

Refez o dia de ontem. Reviu os últimos instantes. Ele. No esforço de dar a conhecer o que se passava. Tinha pensado um pouco antes de responder. Tomado fôlego. Ensaiado gestos leves. Olhado para os lados. Foi o tempo que faltou.

 

O que você me diz, pai. Perguntou, após longa narrativa para a questão arranjada. Só para ouvi-lo.

 

Ele tossiu. Apontou para as costas. Ansiava por um tapa. Pedia socorro.

 

O que você...

 

A frase jamais se completou. Pairou no ar. Muda.

 

Ele. Mudara de cor. Tombara. Engasgado com o excesso. De palavras. Das que não foram ditas. Ele também era dado a silêncios.

 

 

 

 

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