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MORRI

25.04.2019

Morri. Foi esse o argumento mais drástico – e convincente – que encontrei para conversar comigo sobre a necessidade de desapegar-me de coisas. Eu olhava para tudo o que me dá prazer em ter – livros, cds, vinis, revistas, papeis, cadernetas – e mais para tudo o que não dava tanto prazer assim, mas existia aos borbotões e pensava: se eu estiver morta, vocês não vão servir para nada. E vão dar trabalho a alguém que vai ter que lidar com isso e mais com as emoções, até arranjar uma destinação final para tudo o que acumulei. Se eu estiver morta (já me considerando viva) nada disso vai fazer sentido. Assim, todas essas coisas foram se tornando invisíveis e imaginei a vida sem elas. E, surpresa, segui viva.

 

Em algum momento da minha história as coisas passaram a me parecer demasiadas. Gosto da frase de Chico César: Coisas são só coisas. Servem só pra tropeçar. Têm seu brilho no começo, mas se viro pelo avesso, são fardo pra carregar. Desde então, luto interna e externamente para diminui-las, para colocá-las em um lugar correto, que não me escravize. Para achar acalanto, além ou aquém do consumo e do consumismo. Até aqui não tinha resultados satisfatórios. Mas acumulava tentativas.

 

Quando o meu locatário pediu o apartamento em que moro há três anos e, bem maior do que a minha necessidade, reagi com a calma de quem já aprendeu sobre impermanência. Depois, me sofri. Olhava para tudo aquilo. Olhava para o que tinha disponível no orçamento (mudei de trabalho e de salário recentemente) e achava que não ia conseguir me adaptar à nova realidade.

 

Quem mora ou conhece Brasília, está por dentro das peculiaridades do mercado imobiliário local. Fiquei acamada várias vezes após ver imóveis bonitinhos nas fotos. Ordinários na vida real. Tomei a providência de organizar entradas e saídas de dinheiro. Tudo na ponta do lápis. Tudo ainda pior.

 

Bateu o desespero. Maldisse o dia em que saí da casa dos pais. Maldisse qualquer arranjo do universo que me fez ser uma pessoa com certo desinteresse pelo dinheiro. Maldisse a cor da pele. Maldisse o sotaque nordestino. Maldisse a minha calma. Quis ser “ryca”. Quis ser ambiciosa. Quis ser desonesta. Quis ter nascido homem. Quis ter aproveitado melhor as oportunidades. Quis qualquer coisa capaz de me dar uma vida de luxo e riqueza. Maldisse os bons modos. A educação tão afeita à correção.

 

Alternei estados de bom ânimo, com total apatia e desesperança. “Tenho uma filha” – dizia para me encorajar à luta. Tenho também amigos. E por meio deles, as sincronias, as coincidências, as serendipidades foram acontecendo. Também me alimentando de esperanças intermitentes.

 

Agora, já me mudei. Apartamento bem menor. Mas ainda no bairro que gosto. Ainda perto do trabalho e da escola da pequena. Agora, continuo lutando no meio de caixas. Caindo sobre elas. Chorando em cima delas. Mas já enxergando a luz no fim do túnel. O desapego, enfim, se concretiza – de forma definitiva – na minha alma e nas minhas crenças.  

 

Morri. Mas renasço livre. Coisas são só coisas. Passarão. Eu, passarinho.

 

 

 

 

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