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O MAR VIROU SERTÃO

29.01.2019

De repente, a notícia. Improvável. Inacreditável. Mas certeira. Dava conta do rompimento de uma barragem de rejeitos minerários em Brumadinho- MG.

 

Diante de um cenário ainda a ser descortinado, mas que se antevia trágico cruel mortal, pensei na rotina jornalística, de certa forma previsível, que se seguiria para dar conta de alimentar um noticiário – por tantos quantos dias forem/sejam necessários – com respostas e perguntas e esclarecimentos e dúvidas.

 

Imaginei esforços. Dificuldades. Coragem. Dos colegas. Sabia também que haveria quem seria taxado de invasivo. De insensível. Sem noção. Não por falso testemunho. Mas por optar, de bom grado, por postura duvidosa em busca de diferenciais. Furos. Novas abordagens.

 

Uma rotina de hard news se avizinhava. Apenas com dia marcado para o início. Embora se saiba que a tendência é que arrefeça à medida que passam os dias. Os sentimentos prementes ligados à eclosão de um “fato”.

 

Artigo do jornalista Ricardo Kotscho critica ou denuncia o jornalismo por atuar apenas “quando as sirenes tocam”. Ou como seria dito no meu Nordeste, gritar por Santa Luzia, depois da picada da cobra.

 

O veterano profissional se ressente de um fazer, vamos dizer, em extinção, que servia para denunciar – entes públicos e privados e evitar desmandos acidentes tragédias crimes escândalos – antes que pudessem se concretizar. Para Brumadinho, desmando acidente tragédia crime escândalo. Consumados.

 

Com a sirene ecoando em mim, ainda que ela não tenha soado para os de lá, no final de semana me deparei com uma lista de nomes divulgada pela imprensa. Pessoas que trabalhavam no local atingido, segundo o controle de seu empregador.

 

Detive-me a pensar sobre os donos daqueles nomes. Criar suas histórias. Presentear-lhes com um futuro mais bonito. Ocultar-lhes que suas vidas seriam encerradas de forma tão vil. Esconder que às centenas, teriam um destino único na sexta-feira. Hoje, a mídia já é capaz de contar-lhes as existências sob o viés da notícia. E não da imaginação. Como ousei.

 

Passei a questionar o termo “mar de lama” usado pelos meios de comunicação para definir o estado em que as coisas ficaram na região. A expressão une vocábulos que, separados, evocam imagens diferentes. Poesia. Podridão. Juntos, não davam conta de explicar o ocorrido. Para além de um jogo de palavras.

 

Busquei a origem do termo. Remonta a uma fala dos opositores de Getúlio Vargas frente a denúncias de corrupção em seu governo. Aturdido, ele mesmo teria dito que se sentia sob “um mar de lama”. Para sair dele, matou-se.

 

Já em Brumadinho, o mar de lama, matou. E ainda que se buscasse por sobreviventes e ainda que se falasse em desaparecidos, a verdade estava a olhos vistos. Eram todos mortos. Estavam todos soterrados.

 

E tão mais difícil seria retirar dali seus corpos quanto mais o tempo passasse. Endurecesse a lama. Secasse o mar que, nas Minas Gerais, virava, de repente, sertão. Onde jaziam os donos das histórias interrompidas.

 

 

 Foto: Giazi Cavalcante/Código19/Estadão Conteúdo

 

 

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