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Ô ANTONICO...

17.01.2019

A conversa no bar ia muito bem. Ele falava que, como ia mudar de apartamento, estava com vontade de trocar também móveis e objetos de decoração.

 

A informação era tão trivial quanto a pergunta que viria em seguida. – Ah, tranquilo mudar tudo. Mas você vai levar Antonico, né? Era pura retórica perguntar sobre o destino de Antonico pois lhe parecia obvio que, sob nenhum argumento, ele estaria fora de um projeto de mudança.

 

Foi então que o chão se abriu sob seus pés. Com aparente desespero, desses que acometem as pessoas que descobrem alguma desgraça na vida, como a perda de alguém, passando a mão na cabeça, nesse ponto, já baixa, olhar sem foco, ele disse: Joguei Antonico fora.

 

Mais do que dor, ela sentia um oco por dentro. Tentava criar na mente um cenário em que fosse possível a vida seguir sem a presença de Antonico. Logo ele. De porte tão elegante. De personalidade tão discreta. Companhia certeira em qualquer ocasião. Encontro. Desencontro. Alegria. Tristeza. Bebedeira. Abstinência.

 

Antonico não tinha extravagâncias. Era modesto em seus modos. Mas ao mesmo tempo marcante. Sua existência simples e objetiva era motivo de contentamento. Estava lá. E pronto. Não se exigia muito dele. E ele se ocupava em fazer o mesmo. Tocar a vida. Cioso de incomodar. Recobrando na mente que a palavra é de prata. O silêncio é de ouro.

 

Foi em silêncio que Antonico testemunhou tanta vida passando por ali. A olhos vistos. Limitou-se a observar. Sem emitir juízo de valor. Sem desatinar em monólogos que perdessem o sentido face à profusão de ideias compartilhadas.

 

Ela pedia para que ele parasse de falar. O desaparecimento de Antonico não encontrava amparo no mundo. Quis partir para a vingança. Ferir quem considerava ser o algoz do agora saudoso amigo, com sentenças cortantes. Isso não se faz. Você é um ingrato. Podia ter tentando outras coisas.

 

coisas como ficar com o esqueleto dele. Guardar o pó de sua cremação. Manter um pedaço amputado do corpo. Um retalho da roupa. Eram opções que passavam pela sua cabeça, ocupada em encontrar um destino mais compatível com a história de vida de Antonico.

 

- Antonico apodreceu.

 

Ela praticamente fechava os ouvidos com as palmas das mãos. Não. Se recusava a continuar com aquilo. O que era dito lhe soava como desculpas vãs.

 

Como a recobrar a consciência, passaram a recordar a origem de Antonico. Viera das Minas Gerais. Aqueceu o coração de muitos candangos saudosos de suas próprias origens, como, ademais, também estava Antonico.

 

Falando do passado, puderam esquecer da ausência. E se comportar como se Antonico ainda estivesse lá, no lugar de sempre. Vivo. Corpo tinindo. Arrebatando com sua beleza exótica. Seu penteado irretocável. Sua maquiagem bem distribuída.

 

- Antonico não tinha mais conserto.

 

Sentindo o peso da distância (ou da culpa). Olhos marejados. Sussurrou: Como é que está Antonico pelo mundo?

 

Torcia para que tivesse sido encontrado a tempo de ser ressuscitado pelas mãos de alguma criança. Tirando o corpo podre, a cabeça de louça do palhaço ainda era capaz de fazer alguém feliz.

 

 

 

 

 

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