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NO TEMPO DA DELICADEZA

13.01.2019

Houve um tempo em que era fã. Inconteste. Confessa. Alardeava o fato aos quatro ventos. Era impossível conhecê-la, mesmo de forma superficial, e não estar a par da informação. Gostava mesmo. Sabia as letras. Ia aos shows. Consumia os produtos relacionados – discos, livros, camisetas.

 

Como muitas outras, alimentava o sonho de esbarrar com ele em passeio desavisado pelas rotas cariocas frequentadas pelo artista e muito alardeadas pela imprensa, divulgadas sobretudo nas famosas revistas de fofocas. Especialistas em cliques quentes e furos, como o de uma namorada nova.

 

Espiava aquelas fotos tremidas e desfocadas, captadas por fotógrafos dispostos a passar horas sob chuva e sol em busca de uma aparição fortuita que rendesse uma boa grana. Esperava pelo dia em que pudesse fazer parte da imagem. Abraçada e feliz. Capricharia no sorriso. Embora sentisse o tremor de um sonho realizado remexendo as entranhas. Quando chegasse o momento, haveria de estar firme. Pronta para agarrar a oportunidade.

 

Talvez houvesse tempo de dar um beijo. Trocar algumas palavras. Fazer a pergunta que guardava há anos. Estava certa de que um dia seria possível sapecar a dúvida. Ouvir a resposta. Graciosa. Simpática. Assertiva. Ele assumiria o erro. Diria como foi possível consolidar carreira sem nunca ter pensado nisso. Ia se retratar. Ela que aguardasse.

 

Sairia dali com as pernas tremendo. Segurando-se em paredes imaginárias enquanto vencia as calçadas do Leblon. Louca para dizer ao mundo. Sim. Acontecera. O grande encontro. Com direito a foto. Abraço. Beijo. Troca de palavras. E, por último, e mais importante, diria como, no último segundo, houvera tempo de fazer a pergunta que guardava há anos.

 

Ia vivendo assim. Com essa amenidade permeando os afazeres. Missões. Papeis desempenhados. Até que a vida pregou uma peça. Melhor que a encomenda. Agora, era possível conviver com o ídolo. No começo, foi difícil. Precisou se esforçar para achar um lugar entre a estupefação e a naturalidade.

 

Queria saber o que ia conversar. Achava mesmo que era melhor nem abrir a boca. Fingir-se de morta. Não seria de bom tom assumir o lugar de fã. Inconteste. Confessa. Ocupado a vida toda, de longe. Não queria chamar a atenção para o seu lado tiete.

 

Foi como uma crise de identidade. Precisou se reinventar. Para encarar com naturalidade o fato de agora compartilharem atividades comezinhas como bater um papo. Fazerem juntos as principais refeições do dia. Empreender diálogos fortuitos sobre o clima ou sobre a quilometragem das corridas matinais, motivo pelo qual ela sumia nas primeiras horas da manhã só voltando a aparecer quase hora do almoço.

 

A pergunta que guardava há anos. Não havia perdido o sentido. Nem a vontade de saltar cordas vocais afora. Mas não. Como fã, nos tempos do esbarrão que não aconteceu, tudo bem. Mas agora, privando de sua companhia. Impossível. Nem por isso, deixa de fazê-la mentalmente, a cada oportunidade.

 

- Chico, por que você não faz uma música com o nome Tânia?

 

 

 

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