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GUIADA PELAS NARINAS

08.01.2019

Eu cresci em cozinha farta de mãos femininas. Juntas preparavam o alimento de festas que receberiam dezenas e até centenas de convidados. Era famosa a buchada (de bode) que saía de panelas grandes e caldeirões, depois de um longo e delicado processo de preparo – que incluía a compra atenta dos ingredientes. Sua limpeza e corte. A prova com a ponta dos dedos – para saber se os condimentos estavam bem dosados. Aqui havia uma boa dose de intuição. Por fim, as fases de cozimento e, antes delas, o aferventar do conteúdo para ‘pegar’ os temperos. Evitar que a comida estragasse.  Havia pequenos truques usados para que tudo corresse bem. Como deixar uma brecha aberta pelas tampas – para fins de circulação de ar.

 

Por ordem de Deus. Ou do Diabo. Mesmo com todos os cuidados e prevenções, muitas vezes presenciamos as panelas se transformarem em vulcões fumegantes. Soltando espuma branca e cheiro peculiar.

 

Era a constatação de que o improvável acontecera. A comida estragara. Toda ela. Que desperdício. Que lástima. Onde estaria o erro? Quem era responsável por ele? Mamãe, antes de buscar uma solução, se descabelava. Chorava. Gritava. Lamentava tanto prejuízo. Tanto cuidado e carinho perdidos.

 

A feitura de outros pratos famosos como a buchada preparada por mamãe, incluía a pamonha. O arrumadinho. O picado. A carne de bode. A galinha guisada. Mas os sábados eram os dias preferidos pelas crianças. Era a hora dos doces, biscoitos, bolos. Momento de testar receitas coletadas em cadernos escritos a próprio punho, revistas e suplementos da época. O domingo teria como sobremesas pudim de pão. Delícia de abacaxi. Bolo em camadas variadas e coloridas.

 

Eu nunca estive entre as mulheres da cozinha. Poucas vezes me dei ao trabalho de acompanhar suas rotinas. Aprender pela observação teria sido inevitável. Segui lamentando a cada vez que me vi instada a criar algo. Passei anos sem arriscar o preparo de um bolo. Até que fui levada a essa parte da casa pela minha filha. Criança ainda, ela se detém mais ao preparo (e a devorar a massa crua das bacias) do que no alimento pronto.

 

A partir da parceria com ela, tenho me entregue a momentos prazerosos e mesmo terapêuticos  na cozinha. Em meio a algumas tentativas, percebi mais jeito para transformar cenouras, abóboras, abobrinhas, milho e outros quitutes, em caldos e cremes, que devoro ou devoramos, na hora do jantar.

 

Não poupo o uso de temperos aromáticos, especiarias, coisinhas que uso depois de ralar, espremer, sovar. Minha paixão é a noz moscada, confesso. Afastar-me para sentir os cheiros que saem dali é uma paixão à parte. São misteriosos. Sensuais. Bonitos. Evocam alegria. Dão vontade de dançar. De sair desbravando caminhos como a poeira avistada em meio ao raio de sol.

 

Preparar a mesa com as cumbucas fumegantes, é entrar em viagem guiada pelas narinas. E esbarrar em mares nunca dantes navegados. Eu recomendo.

 

 

 

 

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