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O NÃO QUERERES

21.12.2018

Quer alguma coisa do mercado?

 

Nada lhe ocorrera.

 

Até pensou um pouco. Antes. Mas sentira-se sem quereres. Sem desejos. Sem vontades. Nada para justificar um pedido. Ou a espera até recebê-lo.

 

Julgou-se sem graça. Que espécie de pessoa andava assim tão vazia de desejos. Tão despida de criatividades.

 

Quão diferente se sentiu.

 

Noutros tempos, quereria. E teria na ponta da língua a lista.

 

Noutros tempos, os passos dela não seriam tão lentos. Claudicantes. Não haveria necessidade de ter ao lado uma acompanhante.

 

Intrigava-lhe a sua tenacidade. Por que insistir em ir a um mercado, e mais um daqueles que terminam em aumentativo, de proporções gigantescas, que precisam do que ela não mais dispunha – energia. Para andar. Quem sabe quilômetros. Fazer escolhas. Optar por excessos. Em função de um preço mais baixo.

 

Esperou que entrasse no carro. Acompanhava seus movimentos lentos, do alto. Não sabia o que pensar. Quis gritar da varanda, já no último segundo, um desejo recém-descoberto. Percorreu seu pensamento em busca de algo que fizesse sentido. Que parecesse um querer. Verdadeiro. Genuíno. Algo sem o qual não ficaria feliz.

 

Lembrou do que pedia no passado. Pensou se podia repetir uma velha encomenda. Mas não viu sentido no que seria um gesto desesperado.

 

Balas soft? Jujuba? Chocolates daqueles que vinham em palitinhos. Duas camadas separadas por folha transparente de papel manteiga?

 

E, mais recentemente, lingüiça daquelas em gomos, daquelas que comiam no sábado, frita em cima da hora, para salvar o almoço. Com feijão verde e farofa

d´água. Era o possível para um dia em que os mantimentos acabavam. A comida preparada apenas depois que chegasse da feira livre.

 

Também não queria lingüiça. Já não era tão fácil. Só seria encontrada naquele frigorífico chique incrustado no bairro popular.

 

Cerveja? Vinho? Cachaça? Ela reclamaria com grito agudo. Ouvido do alto. Diria algo parecido com “faça uma promessa para deixar de beber”. E ela responderia como se acostumou a fazer: “Sem a cachaça ninguém segura esse rojão”.

 

Sabia que, a despeito da aparente discordância, a cerveja, o vinho, a cachaça, viriam engarrafados em meio aos produtos amontoados em caixas várias. 

 

Só precisava ter coragem de assentir. Pedir. Encomendar.

 

Não queria nada.

 

Queria a não passagem do tempo.

 

Queria vê-la com cabelos esvoaçantes. Elétrica. Onipresente. Admirável. Cheia de vigor. Voltando do mercado em passos rápidos. Ela mesma preparando o almoço do sábado. Enquanto desbravava as sacolas. Distribuía o que os pequenos ansiavam por receber. Reclamando dos preços altos. Deixando-se quedar, finalmente, em cima do sofá. Depois da missão cumprida. Lugar onde tiraria um cochilo. Roncaria, até. Observada por sua mais nova. A fera permitindo-se o apartar da luta.

 

Não queria nada do mercado.

 

Queria sua mãe de volta.

 

Sem o peso dos anos. Sem a tristeza dos dissabores. Sem a ausência de tantas pessoas que amava.

 

Queria sua mãe de volta.

 

E ela estava ali. Diante dos seus olhos.

 

Apenas o tempo. Era o que não se enxergava. Passara rápido demais. Como um raio. Invisível.

 

 

 

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© 2017 por Waleska Barbosa. Orgulhosamente criado com Wix.com por Mauro Siqueira.

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