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O QUE NÃO TEM CURA

21.12.2018

A viagem começou às 4h20. Quando abriu os olhos de supetão. Na noite anterior, não adormeceu. Morreu simplesmente. Sentindo-se doente. Com o corpo dolorido. Abdome inchado.

 

Foi obrigada a tomar chá de boldo. Tinha lembranças de infância de que era um dos piores. Não servia para acompanhar biscoitos e boas conversas em finais de tarde ensolarados. Era remédio.

 

Até se surpreendeu ao não achar tão ruim o sabor - agora que parecia ingeri-lo pela primeira vez. Nas outras, ouvia os relatos. Via as caretas. Acompanhava a prescrição para as piores doenças. Agora, surgia com sua cor verde claro. Seu cheiro plausível de terra molhada. Relutou em dar o primeiro gole.

 

Como aceitasse bem o que veio, quase consentiu quando a segunda caneca foi oferecida. Não. Embora no íntimo soubesse ser capaz de mais uma. Desde que o resultado fosse o alívio rápido que esperava.

 

Quando abriu os olhos de supetão. Eram 4h20. Mas ainda não sabia. Buscou respostas rápidas em uma mente ainda desacordada. O despertador. Tocara? Antes de morrer na noite anterior não teve força para programá-lo. Nem para carregar o celular. Portanto, o horário marcado para a partida, 5h, já poderia ter passado. Procurou a confirmação. Eram 4h20.

 

Agradeceu ao que quer que fosse – desde seu relógio biológico até um anjo da guarda diligente – por não ter perdido o compromisso. Entrar no carro de um desconhecido. Viagem arranjada pelas redes sociais. Pela qual pagaria R$ 45.

 

O aperto entre outros passageiros anônimos acabaria em pouco mais de duas horas. Nesse tempo, dormiu e acordou entorpecida. Em um vaivém cansativo. Irritante.

 

Uma hora, eram as notícias alarmantes de casos policiais tocadas em altura máxima no rádio (problema que decidiu resolver, pedindo, por favor, que o volume fosse ajustado); noutra, a freada brusca que descobriu, ao olhar para trás, que os tinha livrado de um condutor imprudente.

 

Quando já divisava a sombra de prédios altos e modernos, novinhos em folha, no horizonte, foi tomada por uma sensação conhecida. Chegar. Voltar. O coração se desajustou um pouco. Sabia o que ia encontrar. Mas preparava-se para as surpresas. Tentava apreender o que havia de novidades nos caminhos já tão conhecidos. E ao mesmo tempo inéditos.  

 

Atravessou a cidade. Tão íntima. Tão arredia. Trazia marcas da passagem do tempo. Em si. Havia perdas. Algumas pessoas não estariam mais. Nada estaria. Como antes. Há muitas viagens tentava ajustar a ampulheta. Deixar para trás o que estava lá. Enxergar o que de fato devia ser visto. Desafio sem final feliz. Dilema conhecido. Ficava constrangida ao vê-lo se repetir.

 

Chorou. Não esperava pelas lágrimas. Mas deixou que viessem. Soluços abruptos encolhiam-lhe a barriga. De forma involuntária.

 

Agora, nenhum chá traria melhoras. A dor era mais profunda. Difusa. Irradiada para lugares invisíveis. Pudesse, sairia correndo.

 

Chegar. Voltar. Parecia um erro. Repetido à exaustão.

 

 

 

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