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O CANTO DA SEREIA

22.11.2018

A voz me acordou. Como o estalar de dedos que faz abrir os olhos de um hipnotizado. A pergunta me tirou de um transe. Daqueles que dá quando é meio dia. O sol está quente. A barriga reclama fome – sem controlar os decibéis de seu ronco. Os olhos miram mais os pés do que as estrelas – para desconsolo do cientista que recomendou o contrário. O pensamento – de galho em galho. Para dissabor dos que pregam a meditação como forma de controle dos macacos da mente.

 

- Você quer melhorar a sua dor?

 

Meus passos diminuíram o ritmo. Era convidativo. Olhei com mais atenção para a direção de onde vinha o som. Queria chegar no seu emissor. Em segundos, pensei em todas as dores. As físicas. As emocionais. As alheias que chegam até mim de alguma forma – por aproximação ou repelência.

 

Responderia sem pestanejar. Que sim. Que é claro. Que esperei até ali para ouvir aquela proposta. Que isso é tudo que alguém pode querer. Que eu me sentia muito lisonjeada por ouvir as palavras premiadas. Em meio a tantos passantes. Fora a escolhida. Era como viver a experiência da Virgem. Era como ser interpelada por um anjo. Urbano. Pós-moderno. Caído. Em centro administrativo. Horário de rush.

Era de se estranhar. Meu instinto de sobrevivência alertava. Trazendo em seguida frases sem muito arrojo, ditos populares. – Quando a esmola é demais, o cego desconfia.

 

Coube a mim concordar. Ainda com o visgo da tentação. Chegava a ser uma afronta. E quem não quer melhorar a sua dor? Tudo bem que podia haver nesse mundo quem merecesse. Precisasse. Da melhoria ofertada. Mais do que eu.

Enumerei os tipos que se enquadrariam na categoria. De gente próxima a desconhecida. Como a senhora sem uma das pernas. Uma mão amparando a muleta. A outra, estendida. Voz quase ininteligível. Não fosse sua cantilena fácil de ser inferida. Queria ajuda. Uma moedinha que fosse.

 

Mas era para mim que ela se reportava. E agora eu passava para uma interpretação estético-semântica da coisa.

 

Não era hora de poesia. Mas, convenhamos, a sentença tinha certa classe. Era enxuta. Coerente. Coesa. Encontrava eco em tantas nuances da vida. Suas agruras. Suas luzes. No fim do túnel. Reverberava em tantas subjetividades. Por outro lado, chegava a ser panfletária. Aberta demais. Sem foco. Podia servir a dois. Ou mais. Senhores. Engodo. Puro. Simples.

 

Seria o número do sapato. A tampa da laranja. A resposta para quem anda por aí em busca de salvação.

 

Ora, se eu quero melhorar a minha dor?

 

Demorô.

 

Dê logo para cá esse milagre. Antes que eu o tome à força.

 

Mas comigo não, violão. Que eu já tô é vacinada. Esperta. Não caio mais nessa. Não vou dizer que nunca aconteceu. Que de mentir também não sou. Mas a gente aprende. A vida é uma escola.

 

Quando enfim as ondas sonoras se ajustaram. Fui levada a olhar para baixo. Vi uma moça jovem sentada em um banco de madeira. Pele clara. Cabelo escuro. Vestia camisa polo verde, calça de moletom ou um jeans folgado. Nos pés, um sapatênis, que é nenhuma coisa nem outra e tem cara achatada de sapo.

 

Empunhava embalagem de papelão retangular – verde também. Ao seu lado, escorada no banco, uma caixa com o mesmo leiaute cor da esperança. Era o estoque.

 

Se eu tivesse me rendido ao canto da sereia. Se eu tivesse dito sim. Caso tivesse gritado, como cheguei a pensar. Sim - eu quero melhorar a minha dor. Teria recebido em troca a oferta de um frasco (ou dois para ficar mais em conta) da pomada massageadora Fisiofort.

 

 

 

 

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