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AS PESSOAS PEDIAM AMOR

29.10.2018

Amanhã a blusa é roxinha?

 

Perguntei à filha, sobre a cor indicada para a blusa da escola, na segunda-feira.

 

Era domingo. E ela havia chorado. Medo por mim. Mulher negra. Medo por ela. Mulher. Ainda que da pele clara, e uma gotinha em situação melhor que eu (que eu entendesse bem), ainda estava no rol dos grupos para quem recaem o ódio e as ameaças de extermínio de um hoje presidente da República eleito e seus milhões de seguidores.

 

Eu tentava ser mais carinhosa. Por isso a palavra no diminutivo. Queria mudar de assunto. Já não sabia como apaziguar um coração infantil onde, não posso imaginar quais e em qual intensidade, se passavam dúvidas e agonias. Eu já não tinha resposta para me dar.

 

Quero a vermelha.

 

Ela, que faz questão de seguir a sequência da paleta, tivera o ímpeto de mostrar sua resistência como imaginou ser possível. Entendi e não disse nada. De manhã, escolhi, também eu, uma blusa vermelha. E assim estava feito o pacto silencioso pela forma de resistência encontrada para o dia de hoje. Por nós.

 

Era domingo. E depois do resultado anunciado (e intuído) embora com esperança aguardássemos os números da virada, as pessoas pediam amor. Era essa agora a urna onde depositar escolhas. Posturas. Era essa a aposta. O espaço depositário do futuro. E de um dia a dia que não se sabe para onde vai rumar. E assusta.

 

As pessoas pediam amor. E eu discuti com o pai da minha filha. As pessoas pediam amor e eu tasquei uma mensagem indignada no grupo da sala de aula dela. Dizia-me cansada. De muros. E muito mais das pessoas e instituições em cima deles. As pessoas pediam amor. E eu não tinha mais como fechar os ouvidos (as janelas já estavam cerradas) para toda sorte de gritos de guerra, fogos de artifício e jingles com ritmos variados (do funk ao sertanejo) que bendiziam o candidato eleito.

 

Vinham bem debaixo do apartamento onde moro. Do churrasco de um, até então insuspeito, eleitor e sua família. As pessoas pediam amor. E eu sentia asco. Vez primeira, saí bloqueando, deixando de seguir, inoculando, tudo o que me fizesse mal nas Redes Sociais. Não sou obrigada – pensei.

 

Era segunda. Do alto do mastro da bandeira empunhada no corpo – ergui a cabeça. As pessoas pediam amor. E era isso que eu me dispunha a dar. O moço na lotérica provocou. Tudo bem? Tudo, respondi. Mas você não parece muito animada. Mas, tô ficando, moço. Não me resta outra coisa.

 

Era segunda. Ouvi, enquanto atravessava a rua, o diálogo entrecortado. Foi muita pancadaria, disse um. Meu voto ele não teve, respondeu o interlocutor. Ainda antes, um cheio de si homem respondendo ao bom-dia do outro, com um “não podia estar melhor”. E ficava a dica. De onde vinha seu bom humor. Era segunda. E a idosa segurava na sua, a mão de uma criança. Vestia camiseta onde se lia... E eu pensei: as câmaras de gás levaram muitos velhos. Adoravam sua carne passada.

 

Era a primeira segunda. Dia em que um regime obscuro saia das páginas da história e entrava na minha vida. Era segunda. As pessoas pediam amor. 

 

 

 

 

 

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