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O QUE NOS REJUVENESCE

26.10.2018

Eu tenho uma amiga uns meses mais nova que eu. Em agosto emparelhamos nossa idade. E eu me sinto vingada dos marços em que escuto que envelheci. E ela ainda não. Gostamos de dizer a quantidade de tempo que nos une. Pelas nossas contas, trinta anos. Adoramos falar sobre o passado. Já repassamos tantas das nossas aventuras – e elas pararam de acontecer há uns dezoito anos, quando vim para Brasília, de modo que nos dedicamos mais ao passado do que a qualquer outro tempo – que por isso mesmo não cansamos delas. Há também vivências mais frescas. Vou chamar de vivências porque a palavra ‘aventura’ talvez não caiba bem nas mulheres de segunda idade que já somos nós. Eu, uns meses a mais que ela. Mas se eu tivesse que pensar bem, decidiria por ‘aventura’ mesmo porque isso iria dar um ar mais jovial às quatro décadas e um pouquinho em que estamos por essas bandas do mundo. Ela já esteve aqui uma vez. Eu vou lá todo ano. Talvez tenha perdido um. Dos primeiros. Ou tenha repetido a dose – tipo janeiro e junho. Outubro e dezembro. Não sei. Digo isso para que saibamos todos que as vivências/aventuras mais recentes não foram simplesmente criações, mas tiveram possibilidade real de acontecer. De forma mais comedida, penso (sem muita vontade de catar lembranças para me certificar da veracidade do pensamento) porque há muito deixamos de ser as quase-meninas de doze, passando pela liberdade assombrada dos trinta e pela maturidade (in)conformada dos quarenta. A minha amiga é quem sabe disso tudo. Porque tem memória das melhores. Por isso ganhou a alcunha de ‘minha memória’. O bom disso é que eu sempre me surpreendo. Entendendo como uma grande novidade algo que ocorreu há quinze anos. A gente segue uma rotina. Ela conta. Eu rio. Gargalho. Divirto-me. Mas então isso aconteceu? Não acredito. E eu fiz o quê? E você fez o quê? Nãoooo (com cara de assombro). A gente nunca deixou de se falar. E tem mais de um ano que decidiu que faria isso diariamente. Era como uma receita de salvação. Autoterapia cruzada. Relatórios diários de que havíamos sobrevivido. E de como como conseguimos a façanha. Trocamos doses de autoajuda recíproca. E a receita se tornou tão eficaz, revigorou tanto nossa saúde mental, que passamos a contrabandeá-la (a receita) para conhecidos e desconhecidos que vinham falar sobre dificuldades, rotinas, sofrimentos e solidões. Meu irmão nos ouviu conversando, dia desses. Não gostou. Disse que aquilo era tipo de coisa que devíamos deixar para nossas filhas, seus primos, primas e quetais. Minha amiga ouviu a censura e mandou avisar que aquilo era coisa pra gente mesmo. E que costumava salvar nossas vidas. Foi por esta intensa troca que aprendi a fazer disso um motivo de autoafirmação. Não há pejo quando aconselho que se escolha ou se faça ou se fortaleça uma amizade. A ponto de falar tudo com essa pessoa. E precisar gastar com ela muitas horas semanais ao telefone. Que se possa contar de alegria e tristeza. Orgulho e vergonha. Dúvida e certeza. Período fértil e menopausa. Libido e frigidez. Sucesso e fracasso. Vitória e derrota. Tudo. Tudinho. Em doses diárias. Para que haja parabéns por conquistas. Para que haja incentivo quando se quer desistir. Para que haja torcida quando o jogo está em campo. Para que possamos rir. Rir quando é para chorar. Rir quando é para rir mesmo. Sorrirmos chumbo trocado. Mesmo quando aquilo parecer fora de hora. Dar conselhos ferozes. Precisar de algum silêncio. Para limpar feridas superficiais no ego. E voltar para nós. Porque desse lugar não abrimos mão. Quando precisamos alardear nossa amizade e recorremos ao número trinta, tento lembrar quando nos conhecemos. Vínhamos de escola diferentes. Não era da vida toda o nosso conhecimento. O que registrei é que foi lá para os meus doze mesmo. Quando fiz primeira comunhão. Aniversário. Ou alguma outra data comemorativa. E não tive convidados. Festa montada em casa. E ninguém apareceu (pensava que nunca tinha passado por isso até escrever essas palavras). Os irmãos fizeram uma força-tarefa para amenizar o trauma. Uns tantos telefonemas e articulações depois, conseguimos fazer vingar a festa. Entre os que apareceram nesta última hora, ela, a minha amiga de até hoje. Penso que foi assim que entrou na minha vida. Para nunca mais sair. Isso nos rejuvenesce.

 

 

 

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