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O MIOLO DA CIDADE

22.08.2018

 

Entre atividades maternas de início da manhã e toda a lista das coisas de sábado na cabeça, resolvi criar coragem para ir até a Rodoviária do Plano Piloto onde, julgava, encontraria um consertador rápido e eficiente para o telefone celular. Evitaria, assim, burocracias convencionais, fila, demora no atendimento, típicas de autorizadas e oficiais. Já tinha funcionado uma vez e eu estava pronta para tentar de novo.

 

Cheguei ao miolo da cidade. Brasília. Tão carente de um ‘centro’ que até um corredor/rua que liga um shopping de apelo mais popular a um terminal urbano de passageiros, faz a linha de ser um, aos moldes dos municípios comuns - ao concentrar a maior reunião de pessoas, pedestres, mendigos, sem-teto e sem-nada, artistas de rua, burburinhos e bafões que o Plano Piloto pode registrar. Tudo o que, em um lugar não-planejado, daria o tom de centro.

 

Ali, espaço de/para termômetro de opiniões, ampulheta que avisa quando é Carnaval, Páscoa, São João, Dia dos Pais, Dia das Mães, Natal. Serviço metereológico que anuncia tempos de seca, frio, chuva. Opção única para jornalistas que precisam ouvir a voz do povo.  

 

Cruzando a linha entre o shopping e o terminal, me deliciei com o cenário. Com algum esforço poderia me imaginar passeando entre as ruas Maciel Pinheiro e Marquês do Herval, em Campina Grande, passando pelo epicentro, o Calçadão da Cardoso Vieira.

 

Foi então que percebi, na calçada-mercado um movimento diferente. Os rostos – a maioria de pele preta – demonstravam uma tensão que se esforçava em não transparecer. Parei um pouco e observei. Do outro lado da ponta se aproximava um séquito de policiais. E fiscais. Eles não precisavam mais do que caminhar – solenes e empertigados – para causar o efeito desejado. Medo. Deserção. Evacuação. O recado estava dado. E entendido com rapidez ímpar.

 

Em pouco tempo, a tensão era nítida e o movimento era de formigueiro em polvorosa. A calçada que há pouco era agitada, em um instante ficou vazia e silenciosa – destoando ou se coadunando – com a cidade. Brasília. Os ambulantes, com seus pertences embaixo do braço, seguiam procurando refúgio.  

 

Os algozes impávidos atrás – enxotando às avessas. Só pela força de sua presença. Sem gestos bruscos. Sem palavras. Eu fui junto. Por algum tempo. E em todo o percurso não houve alteração do quadro. Cada grupo antagônico cumpria seu papel. Sem alarde.

 

Quando os vendedores estavam bem longe já, a turma de preto deu meia volta. Aliviada com o desfecho pacífico, fui, enfim, tentar o conserto que me levara ali. Foi só o tempo de acertar a encomenda e sair para dar um passeio até que quarenta minutos se tivessem passado.

 

Na volta, a surpresa. Era inacreditável. Mas tudo corria como antes da chegada do tropel. A calçada cheia. Os passantes se misturando aos mercadores e estes aos sem isso ou aquilo. As vendas seguiam com resultados tão profícuos quanto devem ser em um quase meio-dia de sábado. Os bordões se erigiam em bom som.

 

Minha satisfação era visível. Até que a voz miúda gritando uma promoção me tirou da nostalgia e jogou a realidade na minha cara. O encanto se desfez. Já não havia beleza no centro forjado. Era trabalho infantil. E isso meu coração não aguenta.

 

 

Crédito: Gilberto Soares

 

 

 

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