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UMA HORA VAI

14.08.2018

Wilson Brother me chamava de Marylin Monroe do Cerrado. Pouco mais tarde, Ivan Monteiro me disse Frida. Emocionou-me mesmo quando ele surgiu lá de trás, dos galhos secos das árvores, fazendo som de folha se quebrantando sob seu pisar, e gritou: Grace. Né, Grace?

 

E veio se aproximando como quem continua um diálogo longo. Mas que começara com aquele chamado, vindo de repente. Como uma cena que ganha continuidade com o movimento da claquete. E o indefectível: ação.

 

Esperei que chegasse bem perto. Se aproximou até demais. Jogando seu rosto sobre o meu, continuou sua fala (o que gostaria era de tê-la realmente filmado. Sei que minha memória vai me trair agora, na tentativa de reprodução do que ouvi). Não fiz nenhum movimento de recusa. De repulsa. Nenhuma menção de me afastar.

 

Deixei que viesse o que viria a ser o próximo movimento. E ele foi de um texto. Parecendo bem decorado. Que saia. Aos borbotões. Rente a mim. Soltando bafo quente. E um chiado pelo dente que faltava.

 

- Olha, Grace (e aqui caprichou no acento inglês). Eles queriam que eu fizesse tudo. Iluminação, cenário, texto, roteiro, script, direção. Não pode, né? Eu não sei fazer tudo. Eu tenho minha proposta. Tenho o número de inscrição. Agora, posso olhar tudo e aprovar. Porque isso eu sei fazer. Eu posso aprovar tudo de acordo com o que eu acho certo. Eles podiam aprovar minha proposta. E pagar o projeto. Com dinheiro emprestado. Ou doação. Que seria melhor. Muita gente aí dentro (e apontava para o Ministério da Cultura) tem empresa. No nome do sobrinho. Da irmã. Eles podiam captar e aprovar o projeto. Porque eu sou o proponente. E tenho o número da inscrição.

 

Ele respirou. Eu o interrompi. Eu estava como equilibrada em corda bamba. Tinha medo de que desistisse daquela atuação e me deixasse falando sozinha. Temia perder na pausa, o fio da meada. Esperara muito para ouvir dele mais do que desconexões. - Mas não me rende uma crônica, esse danado. Reclamava antes do tempo.

 

Com aquela verborragia. Aquele vigor. Aqueles olhos brilhando. Aquele sonho, ainda não desvendado por mim. Aquelas palavras tantas. Tontas. Acertadas. Termos técnicos. Domínio dos conceitos do mundo da cultura. Ahhh Roque. Você me dava um presente. E eu temia não ter destreza suficiente para segurar o embrulho. Com mãos de quem segura joia rara. Com o cuidado de aparar puro cristal ao som estridente que poderia fazê-lo estilhaços.

 

- Mas Roque, ainda não sei qual a sua proposta. Você nunca me falou dela, afinal. (O nome Roque foi o que ouvi alguém dizer, referindo-se a ele, algum dia).

 

- Você quer ver, Grace? Quer Grace? Vou te mostrar.

 

Esperei que fosse até o tronco que ampara seus pertences. Que entrasse em sua morada – uma barraca de acampamento – na qual habita há tempos. Em gramadão da Esplanada dos Ministérios. Voltou com uma pasta transparente, de onde se podiam antever folhas brancas de papel ofício.

 

Eu continha meu nervosismo. Queria saber com antecedência o conteúdo dos papeis. Ainda receosa de que desistisse de mim. Antes de revelar algum segredo.

 

Entregou-me uma folha impressa assinada pela Ouvidoria de Direitos Humanos. Ali, era descrita sua vida de andarilho acolhido em alguma medida pelo Estado. 

 

Ensino médio. Em situação de vulnerabilidade. Atendido pela rede de cuidados psicossociais. Frequentou tal consultório odontológico público. Beneficiário de programas sociais. Solicitante de alguma coisa no Ministério da Cultura. Registros da passagem de Elicio Roque nesta terra.

 

Quem teria acionado a ouvidoria em busca de melhores condições para ele? Olhei a data. Recente. 

 

Por dentro, ficava feliz pela existência de Roque. Errante. Mas cheia de certeza. O seu amor pela cultura. De onde viria? Seus projetos - imaginários (?) - quais seriam?

 

Ele me entrega novo documento. Um e-mail do Palácio do Planalto. Atestando que uma correspondência enviada por ele havia chegado. Que o presidente da República faria avaliação e responderia em seguida.

 

- Mas você queria ver a proposta, né, Grace? 

 

Remexeu os papeis. 

 

Não estou com ela aqui. Acho que o número é...

 

- Você procura e me diz depois. Agora preciso subir lá.

 

- Eles podiam aceitá-la, né, Grace?

 

E sorria sorriso metade banguela.

 

- Pois é. Negócio é não perder a fé. Uma hora vai.

 

Eu disse. Sorriso cheio de dentes. 

 

 

 

 

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