Please reload

PROCURE POR TAGS: 

05.08.2020

04.08.2020

11.07.2020

07.07.2020

Please reload

POSTS RECENTES: 

SIGA

  • Facebook Clean Grey
  • Twitter Clean Grey
  • Instagram Clean Grey

CORPO E ESCRITA

15.08.2018

Pensei que estava terminando de preencher o formulário. Quando veio a pergunta. E um asterisco indicando a obrigatoriedade da resposta. “Para você, qual a relação entre o corpo e a escrita?”

 

Fui levada a parar. Pensar. Não me senti apta a responder a questão de chofre. São coisas que não se separam. Mas sobre cuja junção nunca tinha pensado.

 

Busquei qualquer palavra rápida. Com a qual pudesse cumprir a missão e garantir minha vaga na oficina gratuita, parte da programação do Livre – Festival Internacional de Literatura e Direitos Humanos. Não foi possível.

 

Precisei abrir um novo arquivo e tentar organizar as ideias. A partir da necessidade de escrever o que seria essa relação para mim. Formular uma resposta que trouxesse alguma da minha verdade sobre o assunto. Teria, então, uma nova descoberta. Um entendimento novinho em folha.

 

Corpo e escrita. Corpo. Escrita. Olhinhos na direção de quem pensa. De quem busca resposta. Reticências. Que coisa mais difícil. Penso em corpo como matéria. Algo real. Palpável. Espaço. Terra. Penso a escrita como subjetividade. Fluidez. Ar. Penso só agora. É preciso que fique claro. Tentativas de definições que surgem para que eu complete o processo de inscrição.

 

Escrevo com o corpo. Com as mãos. Os dedos. Vez em quando as unhas tocam o teclado. Pulsos fixos para aliviar as dores e os tremores de uma superexposição ao gesto de batucar. Escrevo mexendo com o cérebro. Preciso das sinapses e de tudo o que aprendi para tornar o que escrevo inteligível.

 

Por mais de uma vez disse que escrevo com/pelos sentimentos. E sentidos. Só vira texto. Palavras (des)encadeadas. O que me toca de alguma forma dentro do que convencionamos chamar de coração. De alma.

 

Por vezes sou levada a reafirmar que não formulo teorias. Não verbalizo regras.  Não trago luzes sobre discussões obscuras. Não adiciono ingredientes em cadinhos que despontam nas polêmicas calóricas das Redes Sociais. Não sou articulista. Sou cronista. Também digo isso.

 

Alguns me pedem para falar sobre o assunto do dia. “Você não vai (...)?” Perguntam-me. – Não, não vou. Transforma-se em palavras em mim, o passarinho. Um raio de sol. Uma criança vestida de bailarina. Um travo de amor. Uma alegria de solitude. E de solidão. A música que ouvi. A conversa que fisguei. O silêncio que restou como única coisa a ser dita.  

 

Faço isso com meu corpo. A partir dele. Quando estou desorganizada no interno não consigo escrever. Não me vêm textos. E se eu seguir a dica de não confiar na inspiração e partir para o suor, vêm textos sofridos. Sofríveis. Com sofreguidão, junto palavra por palavra. Conto o valor do seu resultado. Demora a chegar em 2,7 mil caracteres com espaço.

 

O meu corpo precisaria de um alinhamento utópico para que estivesse pronto a parir crônicas no ritmo a que me propus? Uma por dia?

 

Quando estou desorganizada, não escrever tampouco me ajuda. Mas romper a inércia parece impossível. Dou um tempo. E volto quando me convém. Quando convém ao corpo. Reclamo por não ter forçado a barra. Então eu não sabia que forjar escrituras me traria a cura?

 

Qual a relação entre o corpo e a escrita? É estável. E instável. É casamento de décadas. Ou novinho em folha. Só emoção. Ou só tédio. Vontade de partir. Necessidade de estar. Ame-o ou deixe-o. Ou me deixa você. Que agora não tenho essa coragem. Relacionamento abusivo. Sexo sem amor. Amor sem sexo. Sexo por sexo - animal. Gozo gritado. Entranhas em tremedeira. 

 

A relação entre o corpo e a escrita. Será que é, como diria Chico Buarque, todo sentimento?

 

 

 

 

 

 

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

© 2017 por Waleska Barbosa. Orgulhosamente criado com Wix.com por Mauro Siqueira.

  • b-facebook
  • Twitter Round
  • Instagram Black Round