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EM NOME DO DIA DOS PAIS

12.08.2018

As coisas corriqueiras. Podiam mostrar seu valor antes de se tornarem raras. Ou podíamos ser moldados a enxergá-las assim, no tempo certo.

 

Há algum mecanismo de defesa escondido no fato de empinarmos o nariz e demonstrarmos ter pouca importância, aquilo que na verdade é feito da matéria que nos faz. Aquilo que aquece nossa alma. Aquilo que significa a vida que a gente leva.

 

Falo isso em nome do ‘Dia dos Pais’. Em 18 anos de Brasília pude estar com meu pai nessa data algumas vezes. Mas quando isso não foi possível, como para não encarar a realidade de não estar onde gostaria, fiz pouco caso. Para não ser corroída pela vontade de estar junto aos meus, no alto do bairro de Bodocongó, em Campina Grande (PB), evitei olhar as fotos compartilhada por meus irmãos.

 

Não queria ser testemunha distante do abraço que gostaria de dar. Não queria intuir – pela impossibilidade de sentir – o cheiro das comidas, que eu sabia nenhum restaurante ou nenhum outro lugar seria capaz de preparar, a não ser as mãos que cozinham no nosso carinhosamente chamado ‘Quilombo dos Barbosa’.

 

Para não ser corroída pela vontade de estar junto aos meus, limitava-me a fazer um rápido telefonema, em que dava os parabéns, agradecia pela vida que me foi ofertada e seguia o dia. Fingindo que era corriqueiro e que não exigia de mim nenhuma outra aparição ou demonstração de afeto.

 

Acreditava que estaria cumprida a missão de ser filha em data comemorativa – com um telefonema regulamentar e palavras regulamentares, proferidas uma única vez, em um dia que pedia que estivesse em linha direta pelas 24 horas que durasse.

 

Presente, abdiquei de dar. Era difícil escolher. Imaginava inalcansável acertar um palpite para além dos óbvios livros, camisas de manga ou as certeiras meias ou cuecas que, vez por outra apareciam entre o rol escolhido por tão grande prole, incluindo filhos, agregados e admiradores.

 

Carta ou cartão, também não. Ficaram restritos aos tempos de escola. Em que uma letra miúda, torta e mal-ajambrada, que assim permanece até hoje, transcrevia os sentimentos de amor e admiração. Eles aninharam uma infância movida à cumplicidade com um Manoel Barbosa cheio de graça e pequenas magias. Como um batucar de dedos alternados sobre a mesa, um estalar na boca e um fazer pedras pularem num laguinho que havia nas redondezas, à época. Coisas só possíveis para ele, segundo acreditavam meus olhinhos infantis.

 

Papai já não está entre nós. Mas a relação não se acabou. Costumo acordar muito cedo, como ele fazia. E dali, ligar o rádio e passar algumas horas dedicada às músicas e notícias que vêm de longe, como ele fazia. Vendo o dia raiar e o céu mudar de cor, sinto-me próxima. Ficamos juntos. Nos visitamos.

 

É quando me dedico a entender a nossa relação. A assimilar o que ele insistiu em me fazer entender sobre a vida e as pessoas. Perdoar-me e perdoá-lo pelas lacunas. Erros. Silêncios. Ausência de entendimentos.

 

O olhar intrigante que me lançava – que eu não sabia se era de julgamento, admiração ou de alguma palavra guardada por ele, que mais me mandava recados do que se disponibilizava a verbalizar pelo risco que corríamos o risco de cair em discussões sem vencedores – ainda busca tradução.

 

No dia em que só me restam lembranças e pensamentos – eu envio daqui o mais longo abraço. E um sonoro: eu te amo. Coisas assim têm linha direta com a vida. Para além da morte. Que nos separa.

 

 

 

 

 

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© 2017 por Waleska Barbosa. Orgulhosamente criado com Wix.com por Mauro Siqueira.

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