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FELIZ ANIVERSÁRIO

10.08.2018

 

 

Era aniversário dela. E mais do que cada felicitação, cada telefonema, cada recado nas Redes Sociais, cada manifestação de carinho, animava-a e aninhava o seu coração o fato de poder ter tirado folga do trabalho naquele dia.

 

Depois de cada bom desejo recebido, o que queria dizer, ao invés do obrigatório “muito obrigada”, era como se sentia bem em transgredir a ordem daquela simples terça-feira. Dia útil transformado em 24 horas passíveis de ócio. Normalmente, àquele horário, já teria cumprido boa parte de sua jornada oficial de funcionária em repartição pública.

 

Mas as atividades haveriam começado bem antes. Ao acordar junto ao canto do galo, se na cidade grande houvesse o soar de um. Ao esforçar-se em sacudir o próprio corpo, abrindo-lhe os olhos, ainda pesados e sedentos de mais algumas horas, quem sabe até minutos, de sono. Ao seguir cambaleante em direção ao quarto dos filhos para lhes despertar – hora dos preparativos para a escola.

 

A primeira tentativa de tirar os pequenos da cama seria ainda esperançosa (de que naquele dia tudo seria diferente e todos consentiriam com as obrigações) e, cheia de gentilezas. Tom de voz baixo, não queria ser ríspida. Só endureceria minutos depois. Ao perceber vã suas tentativas de que o dia começasse bem.

 

Crianças de pé, seria hora do café da manhã, do banho, de cuidar do companheiro, de verificar pendências nas tarefas rotineiras, de deixar ordens para a trabalhadora doméstica, de antecipar o que gostaria de ter nos cardápios de almoço e jantar, de planejar o dia fazendo breves anotações na agenda já tão rabiscada.

 

Ainda precisava dar uma espiadela pela janela para sentir a temperatura naquele momento e prever a que viria em seguida. Saber se usaria roupa leve ou casacos mais robustos. Se nos pés teria chinelas de dedo ou botas de cano alto. Tudo isso posto, deixar as crianças na escola e seguir, rumo ao lugar onde passaria as próximas oito horas. Na volta para casa, não seria muito diferente. Dedicaria um bom par de horas para dar marcha à ré nas coisas da manhã.

 

Mas naquele dia, não. Reservara-se o direito de ficar. Em casa. Na cama. Sem realizar qualquer movimento brusco. Sequer levantar-se. Era preguiça o que sentia. E era vontade de alardear que, ao menos uma vez na vida, a preguiça estava regulamentada, muito bem amparada por leis próprias. Não era desídia, nem pecado capital. Era direito. Adquirido. Pelo fato de ser aniversariante. Por ele, dispensou festejos. Bolo. Parabéns.

 

Poder colocar os pés para cima. Desanuviar a mente. Querer pouco. Quase nada. Abandonar qualquer emergência. Dizer não a pedidos. Poder bocejar com liberdade – bocarra e grunhidos deliberadamente exagerados. Sentir moleza no corpo. Alongar-se até quase alcançar o céu. Para depois voltar para cama. Tendo passado pelo sofá.

 

Até despojar-se no chão fresco de madeira escura. Tudo isso para atender aos telefonemas de felicitações e poder dizer: “– Hoje fiz nadinha. Sabe aquele dia só de preguiça?” Com o orgulho vigoroso da indulgência. E um feliz aniversário.

 

 

 

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© 2017 por Waleska Barbosa. Orgulhosamente criado com Wix.com por Mauro Siqueira.

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