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QUANDO MORRE UMA MULHER

07.08.2018

Quando morre uma mulher. Quando uma mulher é morta. Assassinada. Quando sua vida é extirpada de forma vil. Desleal. Covarde. Morremos todas junto. Juntas. Morre junto um tanto de mim.

 

Quando mais uma mulher é vítima de feminicídio – eu emudeço. Entristeço. Nada é capaz de explicar com exatidão essas razões. De ser morta uma mulher. Pelo seu companheiro. Ou ex. Ou por outros algozes. Pelo fato de ser mulher.

 

Quando sabemos da morte de uma mulher – e o número das histórias que ficam ocultas ainda é maior do que a quantidade que nos chega – olhamos para nós mesmas e nos sentimos desnudas. Alvo em potencial. Cristo na cruz. Esperando mais um prego. O que virá a ser fatal.

 

Quando é traída uma mulher pela sua própria forma de morrer, olho para a minha filha. Criança ainda. Tenho vontade de explicar-lhe o mundo. E o fardo que carrega. Pelo fato de ser mulher. Não posso adiantar uma realidade tão torpe. Embora as pessoas que desferem seus golpes contra uma mulher não considerem inocência. Nem a pouca idade.

 

Com o pudor com que fui ensinada a lidar com alguns assuntos e palavras – preferia que meus pensamentos e essa realidade ensandecida – excluíssem a minha filha. E todas as meninas. E todas as crianças.

 

Mas é preciso encarar que não é bem assim. E nem Chimamanda Ngozi Adichie com seu ‘Para educar crianças feministas’ dá conta de nos instrumentalizar para fazê-lo. Mas eu tento. Tento agora. E antes. E não quero saber se é precoce. É necessário. É urgente.

 

Quando morre uma mulher. Meu dia fica cinza. Minha alma sai para um passeio por um lugar vazio e ermo. Tenebroso. Amedrontado. Fragilizado. Não quero falar. Guardo um silêncio. Não entro nas rodas de conversa sobre a morte de uma mulher. Fico surda. Muda. Mas não por indiferença. Por absoluta tristeza. E dor.

 

Quando um homem mata uma mulher. E chamam a isso de tantas coisas. E as manchetes e textos jornalísticos usam de tantas artimanhas para não gritar a verdade de uma realidade irracional. Inaceitável. Inacreditável. É um desserviço.

 

É porque quem está na redação é aquele que escreve – e se desculpa depois – sobre o papel de uma estagiária gostosa circulando nos corredores de um meio de comunicação. É porque está naturalizado. É porque é aceito.

 

É porque ele, homem, menino, foi ensinado por ação/exemplo e omissão a ser o dono da fala. A mandar. Comandar. Ser o proprietário. Da mulher. Desfazer-se dela, quando se sente vilipendiado nos direitos adquiridos por uma história inteira da humanidade que a submeteu a ele, como se desfaria de qualquer outro bem. Joga fora no lixo.

 

Quando um homem mata uma mulher, ela gritou antes. Mas ninguém meteu a colher. Tantas vezes procurou a rede de proteção. Acionou a justiça. Mas tudo é tão moroso. Menos o comportamento animal. Canibal. Grotesco. Do homem que mata uma mulher.

 

Quando um homem mata uma mulher. O mundo cai por terra. O ser humano mostra a que veio. E a quantas anda sua involução. Quando isso acontece. É dia de fim de mundo. Sobe uma fumaça atômica enevoando qualquer beleza possível. Morremos todas junto. Juntas. Morre junto um tanto de mim.

 

 

 

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© 2017 por Waleska Barbosa. Orgulhosamente criado com Wix.com por Mauro Siqueira.

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