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Todos os dias sofro de ansiedades

18.07.2018

Todos os dias sofro de ansiedades. Cuido delas com carinho. Coloco-as no colo. Lado esquerdo. Mais para o alto. Perto do coração. Para que escutem suas batidas. E se deixem embalar. Acalmar. Qual bebês que precisam da companhia da mãe. Seu cheiro. Tom de voz. Temperatura da pele.

 

Dou às minhas ansiedades a minha companhia. Minha vontade que se acalmem. Minha respiração compassada. Para que se desarmem. E deitem. E durmam. Caiam uma a uma como dominó desmoronando.

 

Dou-lhes as mãos para que não se desvencilhem como cães sem coleira. Dedos entrelaçados, dançamos ciranda. Girando. Leve rebolado nos quadris. Pernas que se dobram. Alternando-se para frente e para trás.

 

Como um agrado e, para mostrar com suave autoridade quem está no comando, crio estratégias para domá-las. Posto que se comportem com birra, criança gritando no supermercado, abaixo-me na altura dos seus olhos e com voz firme, aviso quem manda ali. Aqui. Dentro de mim.

 

Olhar assustado e um leve tremor de corpo é o que recebo de volta. Sinal de que começam a entender o recado. Querem um abraço. E lhes aplico um. De cinco minutos. Que é quando os abraços começam a fazer efeito – soube na Internet.

 

Atadas, as ansiedades se apequenam. Como envergonhadas. Reconhecem no seu comportamento um drama descabido. Um torpor que as impede de enxergar a realidade. Eu as chacoalho. E achincalho. Vez em quando perco a paciência. Como ademais acontece com as mães que embalam seus bebês.

 

Quero que entendam as ansiedades que não acredito em suas razões. E por isso não vou deixar que se demorem. O acolhimento, aliás, é estratégia para que se desarmem. E me permitam a aproximação necessária para estudar-lhes os motivos. E possa, tal qual especialista, romper os fios que as mantêm potentes.

 

Minhas ansiedades fazem meu coração disparar. E não gosto da sensação. Já estive doente assim, de coração desgovernado. Arrítmico. E para isso tomei remédios. Fiz exames. Descobri prolapsos de válvulas. Pois que escapem. Feito gás prestes a explodir. Que não gosto de ser prisão.

 

Amansadas. Domadas. Como bichos selvagens que precisam de cativeiro para sobreviver e perpetuar a espécie, acaricio as ansiedades com distância segura. Quase uma reverência. Pois que as respeito. Mas não lhes dou guarida. Tanta assim.

 

Engano as ansiedades para que não me engulam. Pois que não acredito nelas tanto assim. Não sei de que matéria são feitas. Eu. Sim. Carne. Osso. Batalhas diárias. Tristezas. Gozos.

 

A elas dou palavras. Para ler. Para escrever. Dou música. Para ouvir. Para cantar. Dou vinho. Para pouco goles. Ou embriaguês. Dou esperança. E o apaziguar da vida posta no agora. As ansiedades têm medo do futuro. Eu lhes amparo no dia de hoje.

 

Deixo que durmam. Escutando acalantos de Caymmi. Saudadas no amanhecer por Cartola. Fim de tarde quando voltam, eu recomeço o processo educativo. O objetivo é que um dia elas cessem. Deságuem em águas cálidas para nunca mais se transformar em cascata. Eu. Sim. Carne. Osso. Batalhas diárias. Tristezas. Gozos.

 

 

Foto: Gilberto Soares

 

 

 

 

 

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