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A ESCOLHA

17.07.2018

 

Aconteceu quando contava uns 13, 14 anos. Décadas depois, a história subia à memória. Aproveitando a visita da mãe, agora uma simpática idosa, boa na arte de fazer bolos e outras guloseimas, resolveu compartilhar o causo. Era como uma prova de que tudo tinha valido a pena. Dessas que só a chegada do futuro pode apresentar.

 

Naquela época, nas ruralidades do sul do país, havia liberdade para os infantes. Por isso, estranhou dar de cara com o pai na saída da escola. A raridade da cena fazia com que se parecesse com alguma tragédia iminente. A descoberta de algum segredo. Traquinagem. Qualquer coisa que nem sabia, mas imaginava que o envolvia. Tão intrigante que era a figura paterna estar ali àquela altura do dia.

 

O pai guardou as palavras. Abusou dos gestos. Tocou-lhe como se fora cabeça de gado, até o banco do velho jipe. Apontou o assento. Fechou a porta. Arrancou com tudo. No percurso, apenas os sons do motor e da luta dos pneus contra os obstáculos da estrada de terra. Como a intensificar o clima de mistério, a poeira que tomava conta dos arredores dava pinta de ser bruma em filme de terror. Gelo seco em show de rock.

 

Findo o caminho, foi convidado a trocar de roupa. Substituir o uniforme por dupla simples e surrada de short e blusa. Trajes “de casa”, como se dizia na época. Já no terreiro, recebeu nova missão. Procurar uma enxada no galpão construído com palha e madeira. E, em posse dela, cuidar do espaço agora demarcado. Uma espécie de quadrado ou retângulo, nem muito grande, nem muito pequeno, onde seria o encarregado a partir daquele momento, de fazer um plantio de milho, o que envolvia todas as etapas que levariam uma semente a virar espiga no ponto de ser colhida.

 

As primeiras palavras desde que fora apanhado na escola davam conta que a lavoura era item obrigatório nas atividades domésticas dali em diante. Era a opção. A outra. A segunda. A única. A última. Para quem desistia dos estudos. Pegar ou largar.

 

Oportunidade para o adolescente, deslumbrado com a chegada de idade tão boa para abandonar as obrigações, experimentar o que seria mais prazeroso. Terra ou caderno. Lápis ou enxada. Calo ou maciez. Zona rural ou urbana. Um futuro diferente. Ou seguir os passos do patriarca na lida com a agricultura de subsistência.

 

Foi por esse tira-teima que chegou no próximo semestre exibindo um boletim tão verde quanto seria o milho que não terminou de plantar. Foi fácil saber que mesmo apoquentando seus botões, saber de palavras e números, histórias e geografias, combinava bem mais com seu estilo do que cuidar da plantação.

 

Estava dada a largada para o aprendizado que viria a consolidar como seu ganha-pão. O ofício de fotografar. Uma imagem vale mais. Vale muito. Entendeu. Jamais esqueceria o semblante do pai ao transmitir aquele ensinamento decisivo. Silencioso. Valeu mais do que mil palavras.

 

 

 

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© 2017 por Waleska Barbosa. Orgulhosamente criado com Wix.com por Mauro Siqueira.

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