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O COMPOSITOR

13.07.2018

Já ia com um pouco de atraso. Mas sem abrir mão de deixar janelas abertas, olhar para o azul do céu e toda a luz irradiada nesse outono-inverno brasiliense. Cantava alto e chegava a fazer um ziriguidum discreto, mas capaz de balançar todo o carro, enquanto esperava que o sinal me permitisse avançar.

 

Quem avançou mesmo, aproveitando a irredutibilidade das leis de trânsito, foi um homem. Desses que se aproximam ante a um veículo parado. Eu fui surpreendida pela sua presença na janela, mas senti que não havia perigo.

 

Ele se apresentou de forma tão rápida que continuo sem saber seu nome. Disse que era de uma instituição voltada à recuperação de dependentes químicos e pedia uma ajuda, oferecendo em troca, um tabloide que devia ter as últimas notícias sobre aquela empreitada.

 

Eu resolvi procurar alguma moedinha, segundo me pedira. Olhei no console. Nada. Peguei a bolsa que descansava no assoalho do carro, revirando papeis, livros, maquiagem, remédios, carregador de celular, caneta, caderneta e mais um monte de quinquilharia e um lixinho residual composto por panfletos, boletos, comprovantes de banco, notas fiscais, guardanapos de papel.

 

Enquanto envolvida nessa árdua missão – de descobrir em tempo exíguo – um trocado em meio ao caos, ele disse: - Gostei de você. Feliz. Cantando. Ouvindo música. MPB isso, né?

 

- É. Na verdade, é samba.

 

- MPB. Eu fiz uma música que foi sucesso com Zezé. E falou o título.  Ele tirou o “sonhe”.

 

- Tirou o quê?

 

- O sonhe. Deixou só (e repetiu o título). Pode ver. É um dos maiores sucessos dele.

 

- E você está ganhando os direitos autorais? Perguntei. A resposta parecia óbvia.

 

Estivesse ele percebendo uma grana a cada vez que seu hit soasse por aí sob os auspícios do ECAD, era provável que não estivesse na rua – visivelmente descuidado – dentes faltando, pele ressequida, cabelo desgrenhado. Os olhos, esses sim, amendoados, guardavam algo de brilho que não quer ir embora mesmo em face dos maiores dissabores.

 

Lamentei a postura de Zezé com alguns murmúrios e lamentos. Coisa rápida. Que o sinal. Vai abrir. Vai abrir. Não dava para discorrer sobre o assunto de forma mais visceral. Não dava para emitir juízos acurados de valor.

 

- E você ainda compõe?

 

- Não. Depois que Zezé me traiu, deixei para lá.

 

Diante, talvez, de um artista incompreendido, não cheguei a desacreditar de todo da sua história. O sotaque mostrava que, pelo menos, de Goiás ele vinha. E nada impedia que tivesse encontrado em tempos de infortúnios o hoje artista de renome, Zezé de Camargo.

 

A música brasileira é cheia de episódios de furtos, doações, abandono de autoria de letras, trocas desiguais. E eles não estão restritas aos sambistas dos morros cariocas dos antigamentes. Imbróglios recentes agitam a cena jurídico-musical.

 

Entreguei duas moedas de 0,50. Recusei o tabloide. Aumentei o som. Pisei no acelerador.

 

 

 

 

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© 2017 por Waleska Barbosa. Orgulhosamente criado com Wix.com por Mauro Siqueira.

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