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ENFIAR O PÉ NA JACA

16.01.2018

Ele conta que recusou o convite de esticar uma viagem a trabalho para conhecer um ponto turístico.  Deixou passar a oportunidade – que o resto da turma considerava imperdível – por não ver graça nenhuma em sair por aí turistando sem estar acompanhando pela família.

 

Tentou explicar a sensação que tinha ou a que faltava estando sozinho, com as palavras. Não conseguiu de todo. Apelou para gestos que indicavam, na minha avaliação, que sentia assim, um vazio, uma inutilidade, um estado de semgracisse que não lhe dava a permissão de estar sem que estivessem. No plural.

 

Senti o ímpeto de desvendar o que ocorria. Ou de entender se aquilo era realmente válido – o Não ir. Por não irem. Não perguntando a ele, exigindo que fosse um pouco mais fundo naquele sentimento. A ponto de narrar não apenas o resultado final. Mas o processo. Mas recorrendo aos meus conhecimentos de farmácia sobre a psicologia humana.

 

Desisti de ambas as opções. Nem perguntei. Nem perscrutei (me). Mas a dúvida ficou rondando minha cabeça.

 

Gostei da confissão, por fim. Considerei uma abertura de coração a que os homens não estão acostumados. Já valia por isso. Era um momento daqueles em que nos desnudamos por deixar escapar algo que até então era segredo desses que a gente tenta esconder de si. Embora saiba que exista.

 

Mas a dúvida ficou rondando minha cabeça. Aquele passeio podia ser a única chance numa vida toda. Podia ser que as variáveis nunca mais se enfileirassem de forma tão harmônica a ponto de fazer com que estivesse de novo naquela cidade. E, mais, acompanhado pela família inteira, para só então se sentir na permissão de conhecer o tão disputado lugar.

 

Não resisti à tentação de criar hipóteses. Seria por medo da própria companhia? Ou de sentir-se sozinho embora acompanhado por um grupo de pessoas não tão íntimas? Seria por não achar excitante o suficiente não ter alguém de casa para comentar sobre a beleza do passeio?

 

Será que não se julgava merecedor de vivenciar aqueles momentos? Seria corroído pela culpa – que o apontaria egoísta por estar ali enquanto a família revia as mesmas e velhas conhecidas paisagens na cidade natal?

 

Fui mais longe e quis alguma conclusão sobre a licitude de uma decisão assim. Era por ele ou pelos outros que ia ou deixava de ir?

 

Pareceu-me bem seguro quando explicou que não fazia sentido estar por aí sozinho.

 

Trouxe a questão para mim. E eu? Seguiria viagem ou voltaria para casa resoluta?

 

Assusta-me pensar que um dia desaprenderei a ver graça, magia, sentido em estar. No singular. Até sei - pode ser difícil.  Pior seria nem tentar. Fugir do confronto com a solidão, a culpa, o julgamento, o egoísmo. Ou com o prazer.

 

Seria como colocar o dedo no copo para sentir – e não apenas intuir  – sobre a temperatura da água que está lá dentro. Ou enfiar o pé na jaca.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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