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DIA DE FESTA

02.11.2017

Abaixo do vestido de noiva não havia tapete vermelho. Nem placas de vidro emoldurando pétalas de rosas. Não havia rosas.

 

À passagem da noiva não irrompiam delicados efeitos de luzes.

 

De paredes e teto não pendia o efeito suntuoso de milionários projetos de decoração. Não havia paredes e teto.

 

Havia o território. A comunidade. As árvores. As casas de palha. A capela de alvenaria. Tempo a céu aberto.

 

Para pisar o chão batido que levantaria pó não fosse a chuva que caiu naquele dia, ora sendo abençoada, ora sendo maldita, os noivos atravessaram antes as águas.

 

Do rio.

À espera da noiva não havia sacerdote. Nem formalidades.

 

Apenas tradição.

 

Os convidados chegaram a esse não lugar por suas próprias pernas. Nada de disputar a marca mais cobiçada e o modelo mais novo de carro. Não havia carros.

 

Vestiam as roupas de festa. Que não passavam das melhores roupas do dia a dia.

Não havia cores exclusivas. Tudo era permitido. Até as chinelas de dedo.

 

O dia era solene. E isso se via nas fisionomias.

 

Da noiva o vestido era branco. Ou amarelado. Não se se sabe se já vestiu outras nubentes. Ou se foi feito para Cinaira.

 

Dalvan estava como manda o figurino. Terno escuro. Gravata de nó frouxo. Torto. Sapatos um tanto puídos, vermelhos de barro.

 

Jovens ainda – 16 e 19 anos – seguiam as coisas do seu lugar. Como tinha de ser.

 

Uniriam os lábios dando ápice ao consentimento dado à união em frente à fogueira – item obrigatório para ocasião como aquela.

 

Titina e Zezinho, pais de Cinaira, deixavam antever uma ponta de saudade do rebento antes das modas do casório.

 

Entregavam de bom grado a filha ao companheiro. E como estava bonita de ser ver. A força. A pele preta. Lábios vermelhos. Brincos pendentes das orelhas. Colar no pescoço. Enfeite na cabeça. Véu escorregando pelas costas.

 

O sorriso.

 

As três flores do mato – uma branca, uma vermelha, uma amarela. Acolhidas em folhas verdes. Viçosas. Buquê que não jogaria para ninguém. Cada um que case a seu tempo.

 

Dalvan oferecia o braço. Promessa de tudo de melhor que pudesse ser e fazer pela jovem desposada.

 

A alegria ficaria escancarada já já.

 

Quando fosse hora de beber, comer e dançar.

 

Umas cervejinhas tinham vindo de Brasília. Já os petiscos eram coisa da terra.

 

Ninguém resistiria a uns saracoteios.

 

Era por causa da música tirada da velha sanfoninha e do triângulo.

 

Tudo coisa bonita.

 

De casamento Kalunga.

 

Agora tudo meio que espantando. Pela chuva.

 

Caiu. Desabou. Molhou. Aquela gente simples. E nobre.

 

Abençoou.

 

Era dia de festa em Vão das Almas.

 

Sei disso porque o feito foi fotografado.

 

E das fotos vemos mais do que a cerimônia.

 

Está ali tudo o que importa.

 

Aquela gente é que sabe.

 

E faz a generosidade de nos mostrar.

 

 

Foto: Paulo de Araújo

 

 

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