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AQUI,NESSA MESA DE BAR?

18.10.2017

Queria fazer muitas coisas.

 

Mas o calor me consumia. E consumava minhas vontades todas.

 

Era, até ali, o dia mais quente da história curta da cidade de Brasília. Temperatura igual ou superior às encontradas no deserto. Assegurava o jornal.

 

Desmarquei o encontro com a amiga. Desisti dos outros compromissos que marcara frouxamente comigo mesma. Deixei-me quedar na agonia do calor que esquentava as paredes e o ar.

 

Aceitei uma cerveja em um bar das redondezas.

 

Sentei-me. O tempo indiferente passou tanto a ponto de me despertar para o fato de que não havia sido atendida.

 

Podia ter feito um sinal. Demonstrado impaciência. Chamado. Mas não conseguia entender como em um lugar pequeno, com quatro funcionários e uma única cliente (que ainda não se tornara), alguém não aparecia para oferecer o cardápio ou dar boa noite ou dizer, em última instância, que o atendimento não era feito na mesa, mas no balcão.

 

Arranjei uma paciência rara para momentos assim e fiz disso um experimento. Queria saber se a chegada do amigo que eu esperava iria mudar a apatia dos atendentes. Aí, estaria configurado: questão de gênero.

 

Vi que atravessava a rua e torci para que chegasse logo. No entanto, antes disso, uma das moças resolveu dar o ar de sua graça e perguntar se eu estava só esperando ou se queria pedir alguma coisa.

 

Eu disse que pretendia pedir alguma coisa. Como não fui atendida agora só esperava.

 

Impassível, ela agradeceu e saiu. Desentendida.

 

Meu amigo percebeu que algo não ia bem. Não havia nada sobre a mesa a despeito do tempo em que esperara.

 

Saímos de lá enquanto eu contava sobre a hipótese que gostaria de checar antes que ele desse o ar da graça. Era gênero? 

 

Ele achou que era ‘criação’. Minha.

 

E saiu gastando o seu latim com argumentos que apelavam para a empatia. Que podia não ser nada pessoal. A moça não tinha treinamento. Não tinha motivação.

Queria estar em casa. Morava longe. Ganhava pouco. Sairia dali para um ponto de ônibus e de lá para umas duas horas de caminho até chegar.

 

Eu não concordava. Ou melhor, concordava. Sabia que podia ser tudo aquilo. Mas não entrava na minha cabeça por que existir um lugar em que alguém senta e fica lá esquecido por cerca de vinte minutos, se a natureza daquele lugar era esperar por alguém que sentasse lá – não para ignorá-lo. Mas para fazê-lo cliente.

 

Incluí nas minhas desconfianças além da questão de gênero, a da cor da pele.

 

Quem é preto – e só quem é – sabe que nunca vai ser de todo um disparate qualquer coisa que venha ou não venha a acontecer sob essa perspectiva.

 

Meu amigo fechou o caso. Dado como sem solução.

 

Restava ainda uma informação inconclusa: as pessoas eram atendidas no balcão ou não mesa?

 

Na volta, ele olhou para lá.

 

E disse: É. Atendem na mesa.

 

Os clientes para os quais a atendente sorria eram, ao que parecia, mãe e filho. Pele clara. Cabelos loiros. Olhos azuis.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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