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BOLA NA REDE

14.10.2017

Cada um com sua loucura.

 

Se de perto ninguém é normal.

 

Pensava nisso com aquiescência bem-humorada enquanto tinha vontade de entabular conversa.

 

Demorava a fazê-lo. Isso também fazia parte do ritual.

 

Não sabia por onde primeiro puxar. Ainda não tinha nomeado a interlocutora. E isso dificultava a saída das palavras de aproximação.

 

Olá. Tudo bem?

 

Podia ser.

 

Mas não parecia ideal.

 

Sentia-se tímido.

 

Fazia tempo que estava lá. Como esquecida.

 

Como podia de repente criar uma atmosfera de intimidade?

 

Era como levar um bicho para o abatedouro.

 

Cruzar o olhar com a caça pouco antes do disparo único. Fatal.

 

Decretar-se culpado antes mesmo do veredicto final.

 

Era como vislumbrar o reflexo no espelho – cínico – como só podia ser em uma ocasião como aquela.

 

A todos era dado o livre arbítrio. Escolhera ficar. Em silêncio. Bochechas rosadas.

 

Rechonchudas. Despudor em existir. Em deixar-se ficar. Como esquecida.

 

Não era estranho que não tivessem ficados amigos antes.

 

Sequer se cumprimentado.

 

Não era assim que funcionava quando tudo parecia fazer sentido.

 

Mas a passagem do tempo mudava também aquela relação.

 

Doía vê-la.

 

Machucava antever seu destino.

 

Queria que fosse diferente. Mas a vida. A correria. A inapetência. Os apelos da rua.

 

Pudesse escolher e encontraria parceiro para desferir o golpe final.

 

Assim, não seria obrigado a ser algoz.

 

A dar o caso por encerrado.

 

Usar as próprias mãos.

 

Era o que havia feito semana passada.

 

Mas dessa vez, era obrigado a admitir, estava mais difícil.

 

Não sabia a razão.

 

Quando decidiu chamá-la por Marília parecia ser tarde demais.

 

Ou podia ser que mudasse tudo.

 

Também acreditava nisso.

 

Caíra na tentação.

 

Agora seria mais difícil consolidar o ato. A essas alturas inevitável.

 

Fariam companhia um ao outro por uns dias ainda.

 

Olha, Marília, não me leve a mal.

 

Nem chegou a dizer.

 

Isso exigiria comprometimento.

 

E já então usava óculos escuros.

 

Ajudavam a fingir que não via.

 

Não sabia por que precisava conversar.

 

Ao menos um pouco.

 

Batizá-la antes da morte era justo. Ato de caridade. Ainda mais agora que se reaproximava da fé. Da religião.

 

Chamá-la pelo nome próprio ainda que não apropriado amenizava a cena que estava por vir.

 

Podia não pensar mais nisso.

 

Deixar passar mais alguns dias.

 

Seria uma estratégica mudança de foco.

 

E nem seria tão forjado.

 

A correria. A inapetência. Os apelos da rua.

 

A promessa de que até lá os rumos poderiam ser outros.

 

Podia desacelerar. Sentir fome. Usar o que havia em casa.

 

Isso não aconteceu.

 

Mais alguns dias e sua existência não se ampararia em nenhuma justificativa.

 

Outrora rosada, pálida.

 

De viçosa, a murcha. Encarquilhada.

 

Era chegada a hora.

 

Bom dia, Marília. Tudo bem? Você agora vai embora.

 

Quase a beijou.

 

Sentiu ganas por uma despedida menos asséptica.

 

Com a mão certeira. Segura. Fez  o movimento. Como se fosse jogador de vôlei fez o lançamento.

 

Você agora vai embora.

 

Da geladeira para a lixeira.

 

E a maçã rolou mundo abaixo.

 

Como bola na rede.

 

 bola na rede.

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