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QUINTA-FEIRA APASSARINHADA

05.10.2017

Ainda esperava por ela.

 

Não sabia ainda que chegara.

 

Vi apenas as palavras do poeta.

 

Desejando quinta-feira apassarinhada. E leve.

 

Só então olhei para o relógio.

 

Já era quinta-feira.

 

Já era meu o direito de tê-la apassarinhada. E leve.

 

E resolvi que não abriria mão dele.

 

Porque já recebi muitos desejos.    

                       

Nunca um assim de penas bicos e cantares.

 

Se eu pudesse ficar o dia todo deitada sob muitas cobertas cheirosas e bem passadas, decerto me sentiria apassarinhada.

 

Se eu tivesse um ninho bem vistoso com palhinhas simétricas e arranjadas. Seu eu pudesse entrar na casa do João e ficar ali encurralada, seria coisa de estar apassarinhada.

 

Se eu voasse pela cidade e pairasse em cada janela onde encontrasse água engarrafada. Se eu fosse beija-flor e bebericasse caldinho doce – açúcar cristalizado ou néctar – me sentiria apassarinhada.

 

Seu eu desse longo abraço – sendo bicho planta ou mato – estaria mais perto de ser apassarinhada.

 

Seu eu ganhasse peito largo, nó nunca desatado, o encaixe desejado. Sentisse o cheiro bom daquele suvaco – seria uma mulher vivendo assim planando plena pelo ar mór. Aí, sim. Como seria apassarinhada.

 

Se eu pudesse saltitar. Livre. Solta. Seria quinta-feira leve. Apassarinhada.

 

Mas eu tinha agora apenas a madrugada.

 

Já era quinta. Mas ela não estava assim tão chegada.

 

Quero ver é quando dormir para acordar.

 

Amanhecer com sol. Nuvens avermelhadas.

 

Quero ver é quando o dia quiser desfiar seu rosário de contas mal pagas.

 

Quero ver é quando o relógio tiver que ser consultado a cada minuto.

 

Quero ver é quando receber a minha pauta.

 

Quinta-feira toda semana tem. Quero ver é mais tarde. Como vai se comportar justo essa que calhou de receber a recomendação de ser apassarinhada.

 

Pois que cante bem bonito.

 

Tenha cores. Bico fino. Como elegante sapatinho.

 

Amanheceu quinta-feira.

 

Tem cantoria lá fora.

 

Tem cantoria cá em mim.

 

É meu direito.

 

Ser também um passarim.

 

Se a quinta-feira for do jeito que ela quiser. For tormento ou calmaria. Tristeza ou alegria.

 

Eu cá dentro de mim estarei refugiada.

 

Por desejos de poeta estarei como toda a gente, leve.

 

Apassarinhada.

 

 

 

Foto: Gilberto Soares

 

 

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