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A CHUVA MOLHA TANTO

28.09.2017

O som agora é outro.

 

Como serão os hábitos. As possibilidades. O que é visto. O cheiro exalado.

 

Amanhã mesmo a grama é verde.

 

Hoje mesmo o cheiro de roça. E de cidade cheia de óleo derramado.

 

Deitada, escuto-o com o prazer de quem recebe visita esperada com ansiedade.

 

Com chá e biscoitos. Bolo quente. Mesa posta.

 

No lugar da conversa, o silêncio.

 

Para escutá-lo.

 

O som.

 

Ou barulhinho bom.

 

Da chuva.

 

E já se esquece o que veio antes.

 

O nariz sangrando. O lábio fatiado. O abafado. O mal estar.

 

O desejo pelo fim da seca.

 

A espera pelo cair das águas.

 

Olho pela janela e vejo as primeiras poças.

 

O barulho que fazem esmagadas pelos pneus dos carros.

 

O reflexo irradiado pelas luzes dos postes.

 

A umidade volta.

 

A vida ganhe ares de normalidade.

 

Agora não são mais cento e tantos dias.

 

A notícia que vai para os jornais é outra.

 

Sobre comemoração.

 

Sabemos que virão os lamentos. Árvores caídas. Inundações. Carros perdidos. Acidentes. Trânsito parado.

 

Não é culpa da natureza. Mas dos homens.

 

A natureza só cumpre o ciclo. Atende ao pedido. Molha e restaura esses calangos todos nós. Áridos movies a nos mover com dificuldade. Abrindo espaço para respirar. Tateando – como em nevoeiro – o invisível em busca de um alento. Ar lento.

 

Agora, o imprevisível.

 

A consulta à moça virtual do tempo.

 

Nada mais é certo.

 

Piquenique. Aniversário. Casamento. Caminhada. Corrida. Encontro. Rotas. Intenções.

 

Tudo pode mudar a qualquer momento.

 

Acaba a temporada das festas de rua.

 

Agora, tudo pode acontecer.

 

Ovo para Santa Clara.

 

Caprichar na fé. Repetir a oração. Vai chuva. Vem sol.

 

Se a razão for muito urgente.

 

Entrar em casa. No bar. No restaurante. Na loja. Sob a marquise.

 

Nunca esquecer o guarda-chuva.

 

Usar galochas. Ou botas. Sapatos fechados.

 

Nada mais desalentador do que pé molhado em chuva e lama.

 

Dedos encarquilhados. Unhas escuras. Frio.

 

Trocar o limpador do carro.

 

Verificar antes se está em bom funcionamento.

 

Encostar no posto de gasolina. Esperar a força das águas perder o vigor.

 

Reforçar o estoque de velas. É certo que a energia elétrica dê mostras de debilidade.

 

Deixar carregados os equipamentos eletroeletrônicos. Garantir a comunicação caso a energia demore muito tempo para voltar.

 

Mandar um palavrão bem gritado para o motorista tresloucado que ignora o crime de trânsito. E enfie o pé no acelerador para ver a água turva esguichar em inocentes pedestres.

 

Usar o veículo para arremessar, sobre os pedestres ou veículos, água ou detritos é infração média, passível de multa e perda de quatro pontos na carteira de habilitação. Diz o código.

 

Tempo dos ambulantes. Serão as figuras mais desejadas. Onipresentes.

 

Dez reais e uma proteção inócua e perecível. Capaz de durar apenas até a próxima ventania.  Mais investimento, maior a garantia.

 

A moda não escapa. Guarda-chuva e sombrinhas fashions vão desfilar por aí.

 

Os Achados e Perdidos vão se abarrotar deles. Conhecidos pela sua capacidade nata de se deixar esquecer.

 

Os funcionários do serviço de limpeza vão se cansar da luta invencível contra a água.

 

Tempo do prazer de escutar.

 

De deitar. Se recolher. Se encolher.

 

Que venham os cobertores.

 

Chuvas vão cair.

 

A chuva molha tanto.

 

 

Foto: Gilberto Soares

 

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