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PARA CALAR A MULTIDÃO

18.09.2017

As vozes masculinas se faziam ouvir.

 

Não eram muitos. Falando daquela maneira pareciam multidão.

 

A moça sentada ao largo queria simular recato. Indiferença.

 

Entrar na conversa era a última opção. Mas ouvi-la não estava facultado. Era compulsório.

 

A multidão sabia fazer-se ouvir. Mesmo que a contragosto.

 

Comentava fatos recentes desimportantes exibidos pelas Redes Sociais.

 

Coisas de homens juntos. De gente junta. Desse negócio de palrar enquanto se espera por algo. Ou alguém. Ou pela passagem despretensiosa dos minutos.  

O baterista. Mandou muito bem. Ficou famoso.

 

Conseguiu chegar às vistas de um dos integrantes da banda britânica que tentava interpretar.

 

Mas o inglês.

 

Era todo errado.

 

- Inglês de nordestino.

 

Arrematou um deles – como se chegasse ao cume do que podia ser a grande descoberta da vida. A que a tornaria também famoso. Como o baterista.

Todos concordaram. Inglês de nordestino. Issaê.

 

Seguiram comentando como falavam errado. Coisa de palavra falada, vá lá. Regionalismo.

 

Podia ser. Noutras vezes era coisa de nordestino. Issaê.

 

Lá no Sul era preciso tradução daquele nordestinês. Até acontecera com uma peça de teatro. Ou filme. Ele sabia. A moça não. Sua atenção se dissipou da multidão para encostar na busca do entendimento do que seria inglês de nordestino ou a razão pela qual alguém ainda se arvorava a criar tal categoria.

 

A moça ao largo.

 

Não queria criar contendas particulares.

 

Nem se cobrir de ranço.

 

Também não podia ignorar a voz da multidão.

 

Pôs-se a contra argumentar. Ainda simulando recato. Indiferença.  

 

Estava decidido que não se juntaria a eles.

 

Sua interlocução era com seus próprios botões.

 

Bobagem isso de localizar o inglês falado pelos outros. Muitos estariam blindados às categorizações. Fossem sulistas e falariam apenas inglês. Sem contar com as outras partes do mundo. Para ficar apenas nos separatismos de origem nacional.

Importante era se comunicar? Era passar o recado?

 

Precisava nem da língua. Todo mudo sabe. Basta gesticular. Sorrir. Cantar.

 

Empunhar a bandeira do Brasil. Gritar futebol. Neymar. Pelé.

 

Ou tocar bateria. E viajar tão rápido e assertivo a ponto de sentar na mesma poltrona do baterista que se tentava imitar.

 

E ele, o músico pinkfloydiano, responde bonito.

 

Calaria a multidão.

 

"Quando você soa tão bem assim, nem precisa saber todas as palavras".

 

 

 

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