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MILITÂNCIA

17.09.2017

No grupo de jornalistas me dispus a ser a fonte procurada.

 

Alguém, no mundo do trabalho, que já tivesse se sentido preterido, prejudicado por causa do sotaque.

 

Deixei meu contato nos comentários e logo fui procurada pelo estudante de comunicação que precisava do conteúdo para um trabalho da faculdade.

 

Falamos longamente por telefone. Contei algumas das agruras enfrentadas nesse quesito.

 

O estudante ficou boquiaberto. Eu podia enxergar sua expressão. Mesmo que ouvisse apenas sua voz.

 

Quis saber se eu consentia em oficializar a entrevista. Marcaríamos um encontro.

 

Eu disse sim. Ele nunca voltou a dar notícias.

 

Serviu como uma sessão de terapia. Revisitar episódios que por um período apenas me fragilizaram. Hoje me fortalecem.

 

Com o tempo (quase vinte anos em Brasília) passei a dar menos importância a eles. Embora se renovem com constância diária.

 

O sotaque ficou cada vez mais natural aos meus ouvidos.

 

E as agruras soam como anedotas que repito sem que me cortem a carne. Como algo que aconteceu a alguém e que a mim restou narrar. Benefícios do correr do relógio.

 

Ele, o sotaque, continua existindo. Tal qual minha disposição em não o abandonar.

 

Não seria algo natural. Não tenho facilidade com isso. E não me enxergo simplesmente começando a chiar para não escutar perguntas do tipo: Tem pouco tempo que você chegou, né? Mas você não perdeu o sotaque? Você é de onde? Você é da Bahia?

 

Acontece de ter que repetir palavras ou frases inteiras para me fazer entender. 

O auge do desconforto foi quando tive um número de telefone com vários sete.

 

Para uma pessoa formada em Comunicação Social pode parecer um suicídio profissional trazer para a capital e seus pomposos ambientes uma fala que indica de onde eu vim. E o peso desse lugar/espaço/território na construção de quem eu sou.

 

Confrontei tudo isso com paciência. E alguma cegueira.

 

É difícil ser levada a acreditar que meu “ti” fecha portas sem motivos aparentes para bater.

 

Teimosia infundada?

 

Agora chamo de militância.

 

Insisto em falar da forma como se fala no lugar em que nasci por não acreditar que deva ser diferente em um tal país continental. Com traços ancestrais variados. Colonizadores distintos.

 

Na imperfeição de ser humana, vezes me traio percebendo que recuo ou me apequeno diante do que se naturalizou também para um lado negativo.

 

Surpresa boa foi me disponibilizar para algo até então inédito.

 

É que diante da pergunta do contratante sobre experiência com locução, respondi: Não, nunca fiz.

 

Muito por não me permitirem. E por eu aceitar as negativas. Muito por eu mesma não me permitir.

 

Coisas que não disse. Mas pensei.

 

Voltei atrás.

 

Posso fazer um teste. 

 

Mas falo nordestinês (prova da traição).

 

Ele sabia. E eu sabia que ele sabia.

 

Desacreditei um pouco na empreitada até ver o vídeo todo lindo circulando por aí.

 

Sou eu.

 

É minha voz.

 

É meu sotaque.

 

Alegra-me saber que pela primeira vez, em mais de vinte anos de profissão, fui contratada para fazer um trabalho justo por causa dele.

 

Sinais dos tempos.

 

Ponto para a militância – exército de uma mulher só.

 

Gratidão pela oportunidade.

 

 

 

 

 

 

 

 

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