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O QUE OS OLHOS VEEM

11.09.2017

Dançarinos em pa de deux.

 

Seres mitológicos.

 

Ou alados.

 

Corpo de gente cabeça de boneco do Giramundo.

 

Cruz na igreja.

 

Cristo Redentor – braços abertos sobre um pedaço de chão vermelho.

 

Eram as possibilidades que eu enxergava nos galhos entrelaçados da pitangueira.

 

Corpo contido por moldura de pedras.

 

Para os lados, limites. Opção pelo alto. E avante.

 

Buraco aberto para abarcar as raízes não tão rebeldes da árvore cujos braços/galhos se enroscavam.

 

Podia ser tudo.

 

Terceiro olho. Onisciente.

 

Guardiã oferecendo proteção.

 

Hostess dando boas-vindas.

 

Podia ser qualquer coisa.

 

Mas era planta.

 

Onde eu teimava em enxergar formas e vidas além das que verdadeiramente tinha. Era. Apresentava.

 

Um pouco atrás vi uma pessoa agachada.

 

Do ângulo em que aparecia para mim, podia estar enxugando um café derramado.

 

Como demorasse naquela posição não tão confortável, refutei o papel que havia lhe atribuído.

 

E percebi tratar-se de um engraxate.

 

Que ouviu um sim.

 

Nesga de profissão tradicional. Quase extinta. Quase distinta.

 

Hoje não.

 

Os donos do sapato em lustre suporta o contato do homem com o seu corpo porque mantém os olhos fixos na tela do aparelho posicionado a sua frente.

 

Quase não sobra espaço para a salada de frutas vistosa que chega em seguida. Multicolorida.

 

Mudo o foco.

 

Vozes e trechos de conversas se misturam a cantares vários. De pássaros.

 

Penso que apenas eu os ouço.

 

Todo mundo anda ocupado em conversar.

 

Em verdade são monólogos.

 

Quase discursos em púlpitos.

 

De tão altos.

 

Sou obrigada a ouvir o orador mais próximo.

 

Se falasse de música. De poesia. De espiritualidade. De amor. De alguma coisa desconhecida, mas que me comovesse. De alguma coisa que me levasse junto de tão companheira.

 

Falava sobre...

 

Já tudo me escapou. Graças aos deuses.

 

Só sei que falava só. Embora acompanhado. Que nem respirava. Muito menos comia. Porque ao final da estada seu petit déjeuner foi embrulhado para viagem.

 

Ou foi exagero. Ou falta de tempo.

 

De todo jeito exagero. No pedido. Na fartura de palavras. Na altura delas. No silêncio de oportunidade do interlocutor.

 

Devia ser o dia de sorte do engraxate.

 

Arranjou mais um cliente.

 

Isso era tão raro em tempos em que esses profissionais do mais alto gabarito não passam de andarilhos. Quase pedintes. E suas caixas disfarce para entulhar toda sorte de objetos suspeitos.

 

Ele não. Mantinha escovão. Cera. Pano mais ou menos limpo. E com honestidade oferecia seus préstimos. Mesa a mesa.

 

Cobrou cinco mangos. Ganhou dez. Porque o dono dos sapatos elegantes já tinha estipulado esse valor. Pedisse quinze, ganharia os dez destinados em pensamento.

Preço justo para o serviço. Pediu cinco, ganhou os mesmos dez.

 

E essa explicação. Também alcançada por mim.

 

Pensei que ganharia um café. Mas o terceiro cliente não dividiu ou compartilhou o ouro preto.

 

Para o engraxate, ainda e mais uma vez agachado, restava o aroma.

 

E a herança bendita dos que vieram antes.

 

 

 

 

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