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FEIRA LIVRE

07.09.2017

Os ipês chamaram minha atenção.

 

Cada galho um braço estendido. Um São Francisco oferecendo colo. Não para pássaros e outros pequenos animais.

 

Para as flores. Perfeitas. Amarelas. De doer as vistas.

 

Uma arte singela. Pueril. Por isso, grande. Enorme.

 

Abaixo deles, uma manta de retalhos.

 

Arte singela. Pueril. Por isso, grande. Enorme.

 

Compondo o recorte uma senhora. Sentada.

 

Para alcançá-la era preciso baixar a cabeça.

 

Não ousei fazê-lo. Era pequena diante de tanta grandeza.

 

Por isso, tive uma feliz surpresa ao ser interpelada por ela.

 

Gostou da minha saia. Também de retalhos.

 

Como era bonita. A saia. Para ela. Porque as pessoas pensavam que era fácil juntar aqueles pedaços retangulares ou quadrados de tecidos variados.

 

Mas não era.

 

Difícil fazer uma mistura agradável aos olhos. Difícil juntá-las com linha e agulha a ponto de se tornarem um todo artística e esteticamente agradável.

 

Senti uma felicidade recôndita por também ser motivo de sua admiração.

 

Mas para mim era quase um exagero. A beleza não estava na minha saia.

 

Estava na figura dela. Contemplativa. Tal qual coruja, sábia.

 

Estava nos seus domínios. Representados por aquele manto, por aqueles ipês e pelo banco que lhe dava o descanso.

 

- A senhora que faz?

 

- Sim. Sou eu. Dá para ter os ipês floridos o ano todo em casa. Uso os galhos da árvore mesmo. Mas não arranco. Sou ecologista. Pego os que já estão no chão.

Duram um ano. Até a próxima florada. É só cuidar direitinho.

 

Olhei mais atentamente.

 

Assim, as flores denunciavam sua matéria.

 

Ficassem na sombra, permaneceriam daquele jeito por meses.

 

Era fácil, pensei.

 

Mas sabia. Mesmo sem o efeito de raios solares diretos iria desvanecer. É da natureza do papel crepom.

 

Engraçado que ela soubesse. Ou melhor, incorporasse a premissa na hora de fazer sua propaganda.

 

E ninguém seria enganado.

 

Porque os ipês – como tudo – carregam a impermanência.

 

A florada, que não dura mais que alguns dias, podia levar 365. E isso já era um lucro e tanto.

 

Dona Zélia perguntou há quanto tempo estávamos ali.

 

Não muito.

 

Ela também. Chegara há pouco.

 

Talvez não vendesse nada.

 

Não importava. Não pagara nada para expor. Era Feira Livre. No Eixão Norte. No feriado.

 

Só chegar com a banca e esperar.

 

Havia duas opções.

 

Aparecerem fregueses.

 

Ou restar a apreciação do movimento.

 

A ela coube a segunda.

 

Gostava.

 

Como também gostava de conversar.

 

Desculpe ter lhe chamado para isso. Mas eu gosto de conhecer gente.

 

Eu também. Não precisa pedir desculpa. Eu agradeço a oportunidade.

 

Falou mais. Das filhas. Do que gosta de gerar e parir com o trabalho artesanal.

 

Já não costurava. Mas fazia tudo.

 

Menos divulgação. E páginas nas redes sociais.

 

Para tanto, era necessária uma produção intensa. 

 

Ela não tinha esse fôlego. Ainda.

 

Percebi que talvez nunca mais a visse.

 

Segurei o impulso de pedir o número do telefone.

 

Já tenho tantos. Nunca discados.

 

Procurei inspirar os ventos daquele encontro.

 

Tinham ares de fugidio.

 

Como a florada do ipê.

 

Porque os ipês – como tudo – carregam a impermanência.

 

 

 

 

 

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