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NÃO IA NEM VINHA

06.09.2017

Passei uns dez minutos. Ou mais. Olhando.

 

Parecia criança que tenta pegar um objeto em lugar onde a mão não chega.

 

Dava pequenos pulinhos.

 

Incansáveis.

 

A criança pararia satisfeita caso obtivesse êxito.

 

Ele não parava. Nem cansava.

 

A insistência não deixava qualquer pista esclarecedora sobre a razão do esforço.

 

Parecia um clown fazendo graça de si mesmo.

 

Errando de propósito o gesto desejado.

 

Passando a mão por cima da cabeça quando queria acertar o ombro.

 

Dando trombadas sobre si mesmo.

 

Parecia gente teimosa.

 

Que não desiste.

 

Bate na mesma tecla até esquecer a razão da atitude.

 

Parecia preso por grades imaginárias. Inexistentes.

 

Nada o prendia. Ao contrário. Ar livre. Céu aberto.

 

Só não saia do lugar.

 

Parecia mula empacada.

 

Não ampliava a superfície de investigação.

 

Não explorava o arredor.

 

Subia. Descia.

 

Aterrissava no lugar da partida.

 

Paralisado mesmo que saltitante. Sem pudores fez ali mesmo suas necessidades fisiológicas.

 

Nem dava conta de estar sendo observado.

 

Passei uns dez minutos. Ou mais. Olhando.

 

Queria testemunhar o desfecho.

 

Esperava que alguma coisa acontecesse para mudar a cena. Tinha movimento. Mas estava madorrenta.

 

Meus olhos cansavam do ponto fixo. Embora balouçante.

 

Apostei no acaso. No destino. Nas surpresas. Nos rompantes do acaso.

Já não havia mais tempo para mim.

 

Sairia dali sem saber o que aconteceria quando o futuro chegasse.

 

Era como ter feito mau uso de um recurso. Dispunha de alguns minutos. Gastos na investigação de um espetáculo que, no dizer nordestino, não ia nem vinha.

 

Após decidir abandonar o barco titubeei. Permaneci um pouco mais.

 

Errei de novo.

 

Saí.

 

Olhei para trás.

 

Em vão.

 

Nada mudara.

 

Antes, fiz uma última analogia.

 

Mais perto da verdade.

 

Estava sendo ele.

 

Exercitando o lado narcisista.

 

Enamorado pela própria imagem.

 

A ponto de perder a vida para admirá-la.

 

Ou jogando charme para seu reflexo. Sem perceber que o galanteio não tinha destinatário.

 

Acreditou se tratar de um igual.

 

Mas tratava-se de si.

 

Queria conquistar o par. Às custas de algum diferencial. Que parecia ser aquele bailado anacrônico.

 

Permaneceria sozinho.

 

Sem enxergar a verdade.

 

Olhei para trás.

 

E ainda insistia.

 

Desdenhei.

 

Sem saber a razão de fazê-lo.

 

Eu não tinha nada com aquilo.

 

Apenas acontecera de testemunhar o teatro para o qual nem haveria aplausos.

 

Fui flagrada. Interrogada sobre a razão do olhar fixo.

 

Hoje em dia, querem saber de tudo.

 

Apontei para a frente.

 

A pessoa sorriu e foi embora. Sorriso de gentileza. De quem não entendera patavina, mas também não queria perguntar. Decerto não seria nada que valesse a pena.  

 

Eu não tinha a resposta.

 

Nem teria.

 

Porque saí.

 

E ainda que tivesse olhado para trás não enxerguei nada que me acenasse com respostas.

 

Ou que desse algum sentido àquilo.

 

E ouvi, pela última vez, o som opaco e seco dos pés diminutos contra o batente de mármore branco.

 

Deixei ali o passarinho.

 

 

 

 

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